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quinta-feira, 31 de março de 2011

Jesus Cristo - Descobrindo o Jesus Histórico

Numa incrível viagem à Palestina do século I, historiadores e arqueólogos reconstituem como era a vida do homem comum que se tornou o filho de Deus para os mais de 2 bilhões de cristãos

Foi um dia de trabalho como outro qualquer. Depois da festa da Páscoa do ano 3790 do calendário hebraico, a maioria dos camponeses seguia sua rotina normalmente, assim como os coletores de impostos, os pescadores, os soldados romanos, os carpinteiros, os sacerdotes e as prostitutas. Em Jerusalém, contudo, algumas pessoas deviam estar comentando o tumulto do dia anterior, que resultou na morte de um judeu. Nada que não estivessem acostumados a ouvir. Naquele tempo, a cidade já era palco de conflitos político-religiosos sangrentos e quase sempre algum agitador morria por incitar a rebelião contra os romanos, que governavam a região com o apoio da elite judaica do templo de Jerusalém.

Dessa vez, a confusão foi causada por um judeu camponês chamado Yeshua, que foi aprisionado e condenado à morte por ter desafiado o poder romano e o templo de Jerusalém em plena Páscoa. Se você quisesse chamar a atenção de multidões para as suas idéias, essa era a data ideal. A festa tinha um forte conteúdo político, já que comemorava a libertação dos hebreus do Egito, que agora estavam sob o domínio dos romanos. No meio da multidão (imagine a cidade paulista de Aparecida do Norte em dia de peregrinação), pouca gente deve ter se comovido com a prisão e morte de mais um judeu agitador – a não ser um punhado de parentes e amigos pobres.

Mas nem eles poderiam imaginar que a cruz em que Jesus pagou sua sentença (sim, Yeshua é Jesus em hebraico) seria, no futuro, o símbolo mais venerado do mundo. Da suntuosa Basílica de São Pedro, no Vaticano, à pequena igrejinha da Assembléia de Deus, encravada no interior da Floresta Amazônica, a cruz se tornou o símbolo de fé para mais de 2 bilhões de pessoas. Sua morte dividiu, literalmente, a história em antes e depois dele. Mas, afinal, quem foi Jesus?

Pode parecer estranho, mas para os estudiosos há pelo menos dois Jesus. O primeiro, que dispensa apresentações, é o Cristo (o ungido, em grego), cuja história contada pelos quatro evangelistas deixa claro que ele é o enviado de Deus para salvar os homens com a sua morte.

O outro Jesus, já citado no início deste Post, é Yeshua, o homem que morreu sem chamar muita atenção dos cidadãos do Império Romano. Além dos evangelhos – que, embora tragam detalhes do que teria sido a vida de Jesus, são considerados uma obra de reverência e não um documento histórico – há apenas uma menção direta a ele citada pelo historiador judeu Flávio Josefo, que escreve sobre sua morte no livro Antiguidades Judaicas, feito provavelmente no fim do século I. Para os pesquisadores, essa falta de citações seria um indício da pouca repercussão que Jesus teria tido para os cronistas da época. Se existisse um grande jornal em Israel no tempo de Jesus, sua morte provavelmente seria noticiada no caderno de polícia, e não na primeira página.

Pesquisadores acreditam que, apesar de não existirem indícios materiais diretos sobre o homem Jesus, arqueólogos e historiadores podem ao menos reconstituir um quadro surpreendente sobre o que teria sido a vida de um líder religioso judeu naquele tempo, respondendo questões intrigantes sobre o ambiente e o cotidiano na Palestina onde ele vivera por volta do século I.

A anunciação do Anjo Gabriel a Maria, por Leonardo da Vinci, 1475, Galleria degli Uffizi, Florença

Nazaré, entre 6 e 4 a.C.

Uma aldeia agrícola com menos de 500 habitantes, cuja paisagem é pontuada por casas pobres de chão de terra batida, teto de estrados de madeira cobertos com palha, muros de pedras coladas com uma argamassa de barro, lama ou até de uma mistura de esterco para proteger os moradores da variação da temperatura no local. Segundo os arqueólogos, essa é a cidade de Nazaré na época em que Jesus nasceu, provavelmente entre os anos 6 e 4 a.C., no fim do reinado de Herodes. Isso mesmo: segundo os historiadores, Jesus deve ter nascido alguns anos antes do ano 1 do calendário cristão. As pessoas naquele tempo não contavam a passagem do tempo como hoje, por meio da indicação do ano. O cabeçalho dos documentos oficiais da época trazia apenas como indicação do tempo o nome do regente do período, o que leva os pesquisadores a crer que Jesus teria nascido anos antes do que foi convencionado. Mas não adiantaria chegar a Nazaré no dia 25 de dezembro. Em primeiro lugar, porque ninguém sabe ao certo o dia e a data em que Jesus nasceu, sabe-se apenas que o mês de dezembro é bastante improvável. Esta data foi fixada pela Igreja no ano 525 porque era a mesma época das festas pagãs de Roma em celebração ao deus Sol, Invictus, e a deusa Mitra.

Se você também está se perguntando por que os historiadores buscam evidências do nascimento de Jesus na cidade de Nazaré e não em Belém, cidade natal de Jesus, de acordo com os evangelhos de Mateus e Lucas , é bom saber que, para a maioria dos pesquisadores, a referência a Belém não passa de uma alegoria da Bíblia. Na época, essa alegoria teria sido escrita para ligar Jesus ao rei Davi, que teria nascido em Belém e era considerado um dos messias do povo judeu. Ou seja: a alcunha “Jesus de Nazaré” ou “nazareno” não teria derivado apenas do fato de sua família ser oriunda de lá, como costuma ser justificado.

Mesmo que os historiadores estejam certos ao afirmarem que o nascimento em Belém seja apenas uma alegoria bíblica, o entorno de uma casa pobre na cidade de Nazaré daquele tempo não deve ter sido muito diferente do de um estábulo improvisado como manjedoura. Como a residência de qualquer camponês pobre da região, as moradias eram ladeadas por animais usados na agricultura ou para a alimentação de subsistência. A dieta de um morador local era frugal: além do pão de cada dia (no formato conhecido no Brasil hoje como pão árabe), era possível contar com azeitonas (e seu óleo, o azeite, usado também para iluminar as casas), lentilhas, feijão e alguns incrementos como nozes, frutas, queijo e iogurte. De acordo com os arqueólogos, o consumo de carne vermelha era raro, reservado apenas para datas especiais. O peixe era o animal consumido com mais freqüência pela população, seco sob o sol, para durar. A maioria dos esqueletos encontrados na região mostra deficiência de ferro e proteínas e sinais de artrite grave. A mortalidade infantil era alta e a expectativa de vida girava em torno dos 30 anos. Só raros privilegiados alcançavam 50 ou 60 anos de idade. Essa parca alimentação é coerente com relatos como o da multiplicação dos pães, no Evangelho de Mateus, no qual os discípulos, preocupados com a fome de uma multidão que seguia Jesus, mostram ao mestre cinco pães e dois peixes, todo o alimento de que dispunham.

A Virgem, o Menino e Santa Ana, por Leonardo da Vinci, 1510, Museu do Louvre, Paris, França


Se alguém presenciasse o nascimento de Jesus, provavelmente iria deparar com um bebê de feições bem diferentes da criança de pele clara que costuma aparecer nas representações dos presépios. Baseados no estudo de crânios de judeus da época, pesquisadores dizem que a aparência de Jesus seria mais próxima da de um árabe (de cabelos negros e pele morena) que da dos modelos louros dos quadros renascentistas. Seu nome, Jesus, uma abreviação do nome do herói bíblico Josué, era bastante comum em sua época. Ainda na infância, deve ter brincado com pequenos animais de madeira entalhada ou se divertido com rudimentares jogos de tabuleiro incrustados em pedras. Quanto à família de Jesus, os pesquisadores não acreditam que ele tenha sido filho único. Afinal, era comum que famílias de camponeses tivessem mais de um filho para ajudarem na subsistência da família. Isso poderia explicar o fato de os próprios evangelhos falarem em irmãos de Jesus, como Tiago, José, Simão e Judas. As igrejas Ortodoxa e Católica preferiram entender que o termo grego adelphos, que significa irmão, queria dizer algo próximo de discípulo, primo.

Assim como outros jovens da Galiléia, é provável que ele não tenha tido uma educação formal ou mesmo a chance de aprender a ler e escrever, privilégio de poucos nobres. Ainda assim, nada o impediria de conhecer profundamente os textos religiosos de sua época, transmitidos oralmente por gerações.

E quanto à profissão de Jesus? Historiadores dizem que, baseado nas parábolas atribuídas a ele, é muito provável que Jesus tenha sido um camponês. Sua pregação está repleta de imagens detalhadas da vida agrícola. É quase impossível que esse grau de detalhamento possa ter surgido de alguém que não lidava dia a dia no campo. Mas José não era carpinteiro e seu filho não o teria seguido na profissão?

O professor de Ciências da Religião Pedro Lima Vasconcellos, da PUC de São Paulo, diz que a palavra carpinteiro (tekton) usada no Novo Testamento pode significar também "biscateiro", no sentido de uma classe inferior que faz serviços manuais. "É o que chamamos atualmente do trabalhador pau-pra-toda-obra." Uma das hipóteses levantadas pelos arqueólogos é de que Jesus pode ter trabalhado no campo e, eventualmente, atuado em algumas obras de construção civil. Os arqueólogos descobriram que, a apenas 6 quilômetros de Nazaré, uma série de novos edifícios em estilo greco-romano estava sendo construída na cidade de Séforis. "É possível que Jesus tenha trabalhado lá", diz Vasconcellos. A construção era apenas uma das várias obras que estavam sendo erguidas na época.

Além das intervenções em Séforis, os edifícios construídos nas cidades de Tiberíades e Cesaréia Marítima (nome dado em homenagem ao imperador Júlio César) tornavam a região cada vez mais parecida com as cidades romanas. O problema é que todas essas obras representavam um fardo a mais aos camponeses pobres, que já pagavam muitos impostos. Não é à toa que surgiram nesse período vários movimentos populares de contestação ao poder romano, do qual Jesus era mais um representante.


Tentação de Cristo por Ary Scheffer, pintura do século XIX


Política, religião e sexo

Desde aquele tempo, a região em que Jesus vivia já era, digamos, um tanto explosiva. O confronto não se dava, é claro, entre judeus e muçulmanos. A disputa envolvia grupos judaicos e os interesses de Roma, cujo império era o equivalente, na época, ao que os Estados Unidos são hoje. E, assim como grupos religiosos do Oriente Médio resistem atualmente à ocidentalização dos seus costumes, diversos grupos judaicos da época se opunham à influência romana sobre suas tradições. Na verdade, fazia séculos que os judeus lutavam contra o domínio de povos estrangeiros. Antes de os romanos chegarem, no ano 63 a.C., eles haviam sido subjugados por assírios, babilônios, persas, macedônios, selêucidas e ptolomeus. Os judeus sonhavam com a ascensão de um monarca forte como fora o rei Davi, que por volta do século 10 a.C. inaugurara um tempo de relativa estabilidade. Não à toa, Davi ficaria lembrado como o messias (ungido por Javé) e, assim como ele, outros messias eram aguardados para libertar o povo judeu.

A resistência aos romanos se dava de maneiras variadas. A primeira delas, e mais feroz, era identificada como simples banditismo. Nessa categoria estavam bandos de criminosos formados por camponeses miseráveis que atacavam comerciantes, membros da elite romana ou qualquer desavisado que viajasse levando uma carga valiosa.

Além do banditismo, havia a resistência inspirada pela religião, principalmente a dos chamados movimentos apocalípticos. De acordo com os seguidores desses movimentos, Israel estava prestes a se libertar por uma intervenção direta de Deus, que traria prosperidade, justiça e paz à região. A questão era saber como se preparar para esse dia.

Alguns grupos, como os zelotes, acreditavam que o melhor a fazer era se armar e partir para a guerra contra os romanos na crença de que Deus apareceria para lutar ao lado dos hebreus. Para outros grupos, como os essênios, a violência era desnecessária e o melhor mesmo a fazer era se retirar para viver em comunidades monásticas distantes das impurezas dos grandes centros. E Jesus, de que lado estava?

É quase certo que Jesus tenha tido contato com ao menos um líder apocalíptico de sua época, que preparava seus seguidores por meio de um ritual de imersão nas águas do rio Jordão, e este líder era, João Batista.

O curioso é que, para a maioria dos pesquisadores, o movimento apocalíptico de João Batista deve ter sido mais popular, em seu tempo, do que a própria pregação de Jesus. Os historiadores acreditam que é bem provável que Jesus, de fato, tenha sido batizado por João Batista nas margens do rio Jordão, e que o encontro deve ter moldado sua missão religiosa dali em diante.

Apesar de não haver nenhuma restrição para que um líder religioso judeu tivesse relações com mulheres em seu tempo, ninguém sabe ainda se entre as práticas espirituais de Jesus estaria o celibato. Da mesma forma, afirmar que ele teve relações com Maria Madalena, como no enredo de livros como O Código Da Vinci, também não passaria de uma grande especulação.


O Batismo de Cristo, quadro de Andrea del Verrocchio e Leonardo da Vinci


Uma morte marginal

Pesquisadores são categóricos em afirmar: a morte de Jesus na cruz em seu tempo foi muito menos perturbadora para o Império Romano do que se costuma imaginar. Os pesquisadores desapontam os cristãos que imaginam a crucificação como um evento que causara, em seu tempo, uma comoção generalizada, como naquela cena do filme O Manto Sagrado em que nuvens negras escurecem Jerusalém e o mundo parece prestes a acabar. Apesar de ter sido uma tragédia para seus seguidores e familiares, a morte do judeu Yesua deve ter passado praticamente despercebida para quem vivia, por exemplo, no Império Romano. Ou seja: se existisse uma rede de televisão como a CNN, naquele tempo, é bem possível que a morte de Jesus sequer fosse noticiada. E, caso fosse, dificilmente algum estrangeiro entenderia bem qual a diferença da mensagem dele em meio a tantas correntes do judaísmo do período – assim como poucas pessoas no Ocidente compreendem as diferenças entre as diversas correntes dentro do Islã ou do budismo.

Os pesquisadores sabem, no entanto, que Jesus não deve ter escolhido por acaso uma festa como a Páscoa para fazer sua pregação em Jerusalém. A data costumava reunir milhares de pessoas para a comemoração da libertação do povo hebreu do Egito. No período que antecedia a festa, o ar tornava-se carregado de uma forte energia política. Era quando os judeus pobres sonhavam com o dia em que conseguiriam ser libertados dos romanos.


O Sermão da Montanha, Carl Heinrich Bloch, Copenhague, séc. XIX


Para a elite judaica que vivia em Jerusalém, contudo, as manifestações anti-Roma não eram nada bem-vindas. Afinal, como ela se beneficiava da arrecadação de impostos da população de baixa renda, boa parte dela tinha mais a perder que a ganhar com revoltas populares que desafiassem os dirigentes romanos, cujos estilos de vida eram copiados por meio da construção de suntuosas vilas (espécie de chácaras luxuosas) nas cercanias de Jerusalém.

A própria opulência do Templo do Monte de Jerusalém, reconstruído por Herodes, o Grande, parecia uma evidência de que a aliança entre os romanos e os judeus seria eterna. A construção era impressionante até mesmo para os padrões romanos, o que fazia de Jerusalém um importante centro regional em sua época.

Em meio às festas religiosas, o comércio da cidade florescia cada vez mais. Vendia-se de tudo por lá, incluindo animais para serem sacrificados no templo. Os mais ricos podiam comprar um cordeiro para ser sacrificado e quem tivesse menos dinheiro conseguia comprar uma pomba no mercado logo em frente. A cura de todos os problemas do corpo e da alma (na época, as doenças eram relacionadas à impureza do espírito) passava pela mediação dos rituais dos sacerdotes do templo.

Não é difícil imaginar a afronta que devia ser para esses líderes religiosos ouvir que um judeu rude da Galiléia curava e livrava as pessoas de seus pecados com um simples toque, sem a necessidade dos sacerdotes. A maioria dos pesquisadores concorda que atos subversivos como esses seriam suficientes para levar alguém à crucificação.

Quase tudo o que os pesquisadores conhecem sobre a crucificação deve-se à descoberta, em 1968, do único esqueleto encontrado de um homem crucificado em Giv’at há-Mivtar, no nordeste de Jerusalém. Após uma análise dos ossos, eles concluíram que os calcanhares do condenado foram pregados na base vertical da cruz, enquanto os braços haviam sido apenas amarrados na travessa. A raridade da descoberta deve-se a um motivo perturbador: a pena da crucificação previa a extinção do cadáver do condenado, já que o corpo do crucificado deveria ser exposto aos abutres e aos cães comedores de carniça. A idéia era evitar que o túmulo do condenado pudesse servir de ponto de peregrinação de manifestantes. De qualquer forma, a descoberta desse único esqueleto preservado prova que, em alguns casos, o corpo poderia ser reivindicado pelos parentes do morto, o que talvez tenha acontecido com Jesus.


Diego Velázquez, Cristo crucificado, 1631


O que aconteceu após sua morte? Para os pesquisadores, a vida do Jesus histórico encerra-se com a crucificação. A ressurreição é uma questão de fé, não de história.

Tudo o que os historiadores sabem é que, apesar de pequeno, o grupo de seguidores de Jesus logo conseguiria atrair adeptos de diversas partes do mundo. E foi um dos novos convertidos, um ex-soldado que havia perseguido cristãos e ganhara o nome de Paulo, que se tornaria uma das pedras fundamentais para a transformação de Jesus em um símbolo de fé para todo o mundo. Com sua formação cosmopolita, Paulo lutou para que os seguidores de Jesus trilhassem um caminho independente do judaísmo, sem necessidade de obrigar os convertidos a seguirem regras alimentares rígidas ou, no caso dos homens, serem obrigados a fazer a circuncisão. A influência de Paulo na nova fé é tão grande que há quem diga que a mensagem de Jesus jamais chegaria aonde chegou caso ele não houvesse trabalhado com tanto afinco para sua difusão.

Mesmo para quem não acredita em milagres, não há como negar que Paulo e os outros seguidores de Jesus conseguiram uma proeza e tanto: apenas três séculos após sua morte, transformaram a crença de uns poucos judeus da Palestina do século I na religião oficial do Império Romano. Por essa época, a vida do judeu Yesua já havia sido encoberta pela poderosa simbologia do Cristo: os judeus costumavam sacrificar animais como cordeiros no templo para se purificarem. Ao morrer na cruz, Cristo torna-se o símbolo do cordeiro enviado por Deus para tirar o pecado do mundo. Desde então, a história de boa parte do mundo está dividida entre antes e depois de sua existência.


Garofalo - Ascensão de Cristo, 1510-20


Escavando Jesus

Dois mil anos embaixo da terra
Objetos de cozinha, brinquedos, ferramentas de trabalho e documentos: escavações na Palestina, Iraque, Roma e Turquia revelam como era a vida no tempo de Jesus

Diversão infantil
Conhecidos desde o século VII a.C., bonecos de barro com formas de animais eram brinquedos comuns na Galiléia, no tempo de Jesus

Iluminação
A luz interna das casas era feita por lamparinas a óleo.

Passatempo
Foi encontrado em Hazor, cidade bíblica no norte da Palestina, um jogo que tinha um  tabuleiro de pedra e peões e dados feitos de ossos.

Antes do plástico
Potes de cerâmica serviam para quase tudo. Os  menores e com alças, achados em Megido, tinham vestígios de vinho

À mesa
A decantadeira de cerâmica – achada em 1905, no atual Israel – era usada para servir vinho, cerveja ou azeite

Oliveira
Moinhos encontrados em Cafarnaum, na Galiléia, movidos por tração humana ou animal, eram usados para obter azeite

Despensa
Jarros maiores de cerâmica serviam para guardar comida, principalmente grãos como a cevada e o trigo

Âncoras de pedra
Feitas no século I e achadas no mar da Galiléia, estas foram usadas por pescadores e comerciantes

Manuscritos
A escrita era para poucos. E a maioria dos textos eram religiosos. Como o "Fragmento Trever", parte dos Manuscritos do Mar Morto.

Sandálias
Algumas encontradas em Massada (Israel), tinham solado e palmilhas de couro e cadarços de tecido.

Graal
Feitos de cerâmica, estes eram os copos usados no século I

Dinheiro
Moeda de bronze do reino de Herodes, o Grande, do século I a.C.

Pesagem
Canecas de pedra eram usadas como medida no mercado de Jerusalém


Nossa Senhora e Ísis

De onde pode ter se originado uma das mais belas imagens cristãs
Se você acha que conhece a imagem ao lado, é bom dar uma olhada com um pouco mais de atenção. À primeira vista, ela parece, de fato, representar a Nossa Senhora embalando o menino Jesus. Mas não é. A imagem da estátua é uma representação da deusa egípcia Ísis oferecendo o peito a seu filho Hórus. Apesar de não haver como provar que as imagens de Nossa Senhora tenham sido inspiradas diretamente em representações como essa, os pesquisadores sabem que o cristianismo sofreu, em seus primórdios, a influência de diversos cultos que faziam parte dos mundos egípcio e greco-romano. Desde seu início, o cristianismo tinha uma diversidade assombrosa. Na região do Egito, por exemplo, prevalecera o chamado cristianismo gnóstico, cujos textos revelam um Jesus bem mais parecido com um monge oriental. Alguns historiadores acreditam até que alguns cristãos gnósticos possam ter sido influenciados por missionários budistas vindos da Índia.


Leonardo da Vinci, Madonna Litta

O luxo que vem de Roma

Diferentemente de Jesus, nobres judeus viviam muito bem, obrigado
Para a elite judaica que vivia na Palestina do século I, levar uma vida com requinte e elegância era sinônimo de viver como os romanos. Escavações arqueológicas em Jerusalém e outras cidades indicam uma clara influência da arquitetura e da decoração de Roma no interior das mansões. Para criar uma atmosfera palaciana, era comum, no interior das casas, a reprodução de afrescos e desenhos decorativos com motivos florais e geométricos. Em ambientes maiores, as colunas no estilo romano eram indispensáveis, assim como o uso de mármore para o acabamento dos detalhes – quem não podia pagar pelo mármore usava uma tinta de cor parecida para manter a aura palaciana. Fontes, vasos vitrificados e pisos de mosaico colorido também faziam parte do sonho de consumo dos novos ricos de Jerusalém, que costumavam receber os amigos influentes recostados confortavelmente no triclinium, espécie de divã usado na hora das refeições. Resquícios da importação de vinhos e outros ingredientes nobres da cozinha mediterrânea, como o garum, um molho especial de peixe típico da cidade de Pompéia, também foram encontrados no interior das mansões. Algumas delas deviam ter uma vista privilegiada para o Templo de Jerusalém, de onde os nobres podiam assistir confortavelmente à movimentação dos peregrinos ou mesmo à condenação à morte de rebeldes judeus.

Os outros messias
Os líderes religiosos judeus que não emplacaram na história
Ilustação de Herodes, o Grande
Na época de Jesus, a figura do messias esperado para libertar o povo judeu era muito diferente da nossa atual concepção do messias cristão. Para início de conversa, o messias do povo hebreu não precisava ser nenhum santo. Podia ter várias mulheres (como tivera o rei Davi) e devia empregar a violência, caso fosse necessário, para garantir a autonomia do povo hebreu frente a seus inimigos. Não é à toa que, décadas antes e depois da morte de Jesus, diversos outros homens identificados como messias lideraram movimentos religiosos na região. Por volta do ano 4 a.C., por exemplo, um homem conhecido como Judas, filho de Ezequias, liderou uma revolta contra Herodes na cidade de Séforis, na Galiléia. Judas e seus seguidores chegaram a invadir um palacete na cidade para roubar armas para seu exército de oposição aos romanos. No mesmo ano, outras revoltas foram desencadeadas pelos líderes messiânicos Simão e Astronges. O principal objetivo desses movimentos era derrubar a dominação romana e restaurar os ideais tradicionais do povo hebreu. Na década de 60 do século I, o líder Simão Bar Giora organizou um exército de camponeses que chegou a assumir o controle de diversas regiões da Palestina daquele século. De acordo com os historiadores, o último e mais famoso líder messiânico a comandar uma revolta contra os romanos na região foi o judeu Bar Kokeba. Entre os anos 132 e 135, Kokeba teria liderado uma batalha sem precedentes contra os romanos, conquistando territórios por meio de uma tática de guerrilha que incluía esconderijos em cavernas e construção de fortalezas em montanhas. A rebelião somente foi aniquilada depois que o poderoso Exército romano mobilizou uma força maciça para pôr fim à guerra que se arrastava pelo terceiro ano. Não deixa de ser emblemático o fato de que o pacífico Jesus de Nazaré tenha ficado para a história como o “verdadeiro messias” – logo ele, que nunca liderara um exército.



Fontes: Revistas Aventuras na História e Super Interessante
             Novo Testamento e minha cachola, é claro! :D


                                                                                                      LeandroMatos

quinta-feira, 24 de março de 2011

Quem escreveu a Bíblia?


A história de Deus foi escrita pelos homens. Mas quem é o autor do livro mais influente de todos os tempos?

Em algum lugar do Oriente Médio, por volta do século 10 a.C., uma pessoa decidiu escrever um livro. Pegou uma pena, nanquim e folhas de papiro e começou a contar uma história mágica, diferente de tudo o que já havia sido escrito. Era tão forte que virou uma obsessão. Durante os 1 000 anos seguintes, outras pessoas continuariam reescrevendo, rasurando e compilando aquele texto, que viria a se tornar o maior Best seller de todos os tempos: a Bíblia. Ela apresentou uma teoria para o surgimento do homem, trouxe os fundamentos do judaísmo e do cristianismo, influenciou o surgimento do islã, mudou a história da arte e nos legou noções básicas da vida moderna, como os direitos humanos e o livre-arbítrio. Mas quem escreveu, afinal, o livro mais importante que a humanidade já viu? Quem eram e o que pensavam essas pessoas? Como criaram o enredo, e quem ditou a voz e o estilo de Deus? O que está na Bíblia deve ser levado ao pé da letra, o que até hoje provoca conflitos armados? A resposta tradicional você já conhece: segundo a tradição judaico-cristã, o autor da Bíblia é o próprio Todo-Poderoso. E ponto final. Mas a verdade é um pouco mais complexa que isso.

A bíblia não foi enviada a nós por fax. A própria Igreja admite que a revelação divina só veio até nós por meio de mãos humanas. A palavra do Senhor é sagrada, mas foi escrita por reles mortais. Como não sobraram vestígios nem evidências concretas da maioria deles, a chave para encontrá-los está na própria Bíblia. Mas ela não é um simples livro: imagine as Escrituras como uma biblioteca inteira, que guarda textos montados pelo tempo, pela história e pela fé. Aliás, o termo “Bíblia”, que usamos no singular, vem do plural grego ta biblia ta hagia – “os livros sagrados”. A tradição religiosa sempre sustentou que cada livro bíblico foi escrito por um autor claramente identificável. Os 5 primeiros livros do Antigo Testamento (que no judaísmo se chamam Torá e no catolicismo Pentateuco) teriam sido escritos pelo profeta Moisés por volta de 1200 a.C. Os Salmos seriam obra do rei Davi, o autor de Juízes seria o profeta Samuel, e assim por diante. Hoje, a maioria dos estudiosos acredita que os livros sagrados foram um trabalho coletivo. E há uma boa explicação para isso.



Estátua de Gilgamesh, Universidade de Sidney, Austrália
As histórias da Bíblia derivam de lendas surgidas na chamada Terra de Canaã, que hoje corresponde a Líbano, Palestina, Israel e pedaços da Jordânia, do Egito e da Síria. Durante séculos acreditou-se que Canaã fora dominada pelos hebreus. Mas descobertas recentes da arqueologia revelam que, na maior parte do tempo, Canaã não foi um Estado, mas uma terra sem fronteiras habitada por diversos povos – os hebreus eram apenas uma entre muitas tribos que andavam por ali. Por isso, sua cultura e seus escritos foram fortemente influenciados por vizinhos como os cananeus, que viviam ali desde o ano 5000 a.C. E eles não foram os únicos a influenciar as histórias do livro sagrado.

As raízes da árvore bíblica também remontam aos sumérios, antigos habitantes do atual Iraque, que no 3º milênio a.C. escreveram a Epopéia de Gilgamesh. Essa história, protagonizada pelo semideus Gilgamesh, menciona uma enchente que devasta o mundo, da qual algumas pessoas se salvam construindo um barco. Notou semelhanças com a Bíblia e seus textos sobre o dilúvio, a arca de Noé, o fato de Cristo ser humano e divino ao mesmo tempo? Não é mera coincidência. A Bíblia era uma obra aberta, com influência de muitas culturas.


Foi entre os séculos 10 e 9 a.C. que os escritores hebreus começaram a colocar essa sopa multicultural no papel. Isso aconteceu após o reinado de Davi, que teria unificado as tribos hebraicas num pequeno e frágil reino por volta do ano 1000 a.C. A primeira versão das Escrituras foi redigida nessa época e corresponde à maior parte do que hoje são o Gênesis e o Êxodo. Nesses livros, o tema principal é a relação passional, e às vezes conflituosa, entre Deus e os homens. Só que, logo no começo da Bíblia, já existiu uma divergência sobre o papel do homem e do Senhor na história toda. Isso porque o personagem principal, Deus, é tratado por dois nomes diferentes.

Em alguns trechos ele é chamado pelo nome próprio, Yahweh – traduzido em português como Javé ou Jeová. É um tratamento informal, como se o autor fosse íntimo de Deus. Em outros pontos, o Todo-Poderoso é chamado de Elohim, um título respeitoso e distante que pode ser traduzido simplesmente como “Deus”. Como se explica isso? Para os fundamentalistas, não tem conversa: Moisés escreveu tudo sozinho e usou os dois nomes simplesmente porque quis. Só que um trecho desse texto narra a morte do próprio Moisés. Como ele narraria a própria morte? Isso indica que ele não é o único autor. Os historiadores e a maioria dos religiosos aceitam outra teoria: esses textos tiveram pelo menos outros dois editores.

Acredita-se que os trechos que falam de Javé sejam os mais antigos, escritos numa época em que a religiosidade era menos formal. Eles contêm uma passagem reveladora: antes da criação do mundo, “Yahweh não derramara chuva sobre a terra, e nem havia homem para lavrar o solo”. Essa frase, “não havia homem para lavrar o solo”, indica que, na primeira versão da Bíblia, o homem não era apenas mais uma criação de Deus – ele desempenha um papel ativo e fundamental na história toda. Nesse relato, o homem é tido como co-criador do mundo.

Pelo nome que usa para se referir a Deus (Javé), o autor desses trechos foi apelidado de Javista. Já o outro autor, que teria vivido por volta de 850 a.C., é apelidado de Eloísta. Mais sisudo e religioso, ele compôs uma narrativa bastante diferente. Ao contrário do Deus-Javé, que fez o mundo num único dia, o Deus-Elohim levou 6 (e descansou no 7º). Nessa história, a criação é um ato exclusivo de Deus, e o homem surge apenas no 6º dia, junto aos animais.

Tempos mais tarde, os dois relatos foram misturados por editores anônimos – e a narrativa do Eloísta, mais comportada, foi parar no início das Escrituras. Começando por aquela frase incrivelmente simples e poderosa, notória até entre quem nunca leu a Bíblia: “E, no início, Deus criou o céu e a terra...”

Torá


Em 589 a.C., Jerusalém foi arrasada pelos babilônios, e grande parte da população foi aprisionada e levada para Babilônia. Décadas depois, os hebreus foram libertados por Ciro, senhor do Império Persa – um conquistador “esclarecido”, que tinha tolerância religiosa. Aos poucos, os hebreus retornaram a Canaã – mas com sua fé transformada. Agora os sacerdotes judaicos rejeitavam o politeísmo e diziam que Javé era o único e absoluto deus do Universo. O monoteísmo pode ter surgido pelo contato com os persas – a religião deles, o masdeísmo, pregava a existência de um deus bondoso, Ahura Mazda, em constante combate contra um deus maligno, Arimã. Essa noção se reflete até na idéia cristã de um combate entre Deus e o Diabo.

Ilustração de Esdras
A versão final do Pentateuco surgiu por volta de 389 a.C. Nessa época, um religioso chamado Esdras liderou um grupo de sacerdotes que mudaram radicalmente o judaísmo, a começar por suas escrituras. Eles editaram os livros anteriores e escreveram a maior parte dos livros Deuteronômio, Números, Levítico e também um dos pontos altos da Bíblia: os 10 Mandamentos. Além de afirmar o monoteísmo sem sombra de dúvidas - “amarás a Deus acima de todas as coisas” - é o primeiro mandamento, a reforma conduzida por Esdras impunha leis religiosas bem rígidas, como a proibição do casamento entre hebreus e não-hebreus. Algumas das leis encontradas no Levítico se assemelham à ética moderna dos direitos humanos: “Se um estrangeiro vier morar convosco, não o maltrates. Ama-o como se fosse um de vós”.

Outras passagens, no entanto, descrevem um Senhor belicoso, vingativo e sanguinário, que ordena o extermínio de cidades inteiras não poupando nem mulheres nem crianças. Se a religião prega a compaixão, por que os textos sagrados têm tanto ódio? Para os especialistas, a violência do Antigo Testamento é fruto dos séculos de guerras com os assírios e os babilônios. Os autores do livro sagrado foram influenciados por essa atmosfera de ódio, e daí surgiram as histórias em que Deus se mostra bastante violento e até cruel. Os redatores da Bíblia estavam extravasando sua angústia.

Por volta do ano 200 a.C., o cânone (conjunto de livros sagrados) hebraico já estava finalizado e começou a se alastrar pelo Oriente Médio. A primeira tradução completa do Antigo Testamento é dessa época. Ela foi feita a mando do rei Ptolomeu 2º em Alexandria, no Egito, grande centro cultural da época. Segundo uma lenda, essa tradução (de hebraico para grego) foi realizada por 72 sábios judeus. Por isso, o texto é conhecido como Septuaginta. Além da tradução grega, também surgiram versões do Antigo Testamento no idioma aramaico, que era uma espécie de língua franca do Oriente Médio naquela época.


Dois séculos mais tarde, a Bíblia em aramaico estava bombando: ela era a mais lida na Judéia, na Samária e na Galiléia (províncias que formam os atuais territórios de Israel e da Palestina). Foi aí que um jovem judeu, grande personagem desta história, começou a se destacar. Como Sócrates, Buda e outros pensadores que mudaram o mundo, Jesus de Nazaré nada deixou por escrito. Os primeiros textos sobre ele foram produzidos décadas após sua morte.

Cristo Pantocrator, mosaico. Catedral de Cefalù
E o cristianismo já nasceu perseguido: por se recusarem a cultuar os deuses oficiais, os cristãos eram considerados subversivos pelo Império Romano, que dominava boa parte do Oriente Médio desde o século 1 a.C. Foi nesse clima de medo que os cristãos passaram a colocar no papel as histórias de Jesus, que circulavam em aramaico e também em coiné – um dialeto grego falado pelos mais pobres. Os cristãos queriam compreender suas origens e debater seus problemas de identidade. Para fazer isso, criaram um novo gênero literário: o evangelho. Esse termo, que vem do grego evangélion (“boa-nova”), é um tipo de narrativa religiosa contando os milagres, os ensinamentos e a vida do Messias.

A maioria dos evangelhos escritos nos séculos 1 e 2 desapareceram. Naquela época, um “livro” era um amontoado de papiros avulsos, enrolados em forma de pergaminho, podendo ser facilmente extraviados e perdidos. Mas alguns evangelhos foram copiados e recopiados à mão, por membros da Igreja. Até que, por volta do século 4, tomaram o formato de códice (um conjunto de folhas de couro encadernadas, ancestral do livro moderno). O problema é que, a essa altura do campeonato, gerações e gerações de copiadores já haviam introduzido alterações nos textos originais, seja por descuido, seja de propósito. Muitos erros foram feitos nas cópias, erros que às vezes mudaram o sentido dos textos. Em certos casos, tais erros foram também propositais, de acordo com a teologia do escrivão. Quer ver um exemplo?


Sabe aquela famosa cena em que Jesus salva uma adúltera prestes a ser apedrejada? De acordo com especialistas, esse trecho foi inserido no Evangelho de João por algum escriba, por volta do século 3. Isso porque, na época, o cristianismo estava cortando seu cordão umbilical com o judaísmo. E apedrejar adúlteras é uma das leis que os sacerdotes-escritores judeus haviam colocado no Pentateuco. A introdução da cena em que Jesus salva a adúltera passa a idéia de que os ensinamentos de Cristo haviam superado a Torá e, portanto, os cristãos já não precisavam respeitar ao pé da letra todos os ensinamentos judeus.

A julgar pelo último livro da Bíblia cristã, o Apocalipse, que descreve o fim do mundo, o receio de ter suas narrativas “editadas” era comum entre os autores do Novo Testamento. No versículo 18, lê-se uma terrível ameaça: “Se alguém fizer acréscimos às páginas deste livro, Deus o castigará com as pragas descritas aqui”. Essa ameaça reflete bem o clima dos primeiros séculos do cristianismo: uma verdadeira baderna teológica, com montes de seitas defendendo idéias diferentes sobre Deus e o Messias. A seita dos docetas, por exemplo, acreditava que Jesus não teve um corpo físico. Ele seria um espírito, e sua crucificação e morte não passariam de ilusão de ótica. Já os ebionistas acreditavam que Jesus não nascera Filho de Deus, mas fora adotado, já adulto, pelo Senhor. A primeira tentativa de organizar esse caos das Escrituras ocorreu por volta do ano 142, e o responsável não foi um clérigo, mas um rico comerciante de navios chamado Marcião.


A Bíblia segundo Marcião


 
Marcião
Ele nasceu na atual Turquia, foi para Roma, converteu-se ao cristianismo, virou um teólogo influente e resolveu montar sua própria seleção de textos sagrados. A Bíblia de Marcião era bem diferente da que conhecemos hoje. Isso porque ele simpatizava com uma seita cristã hoje desaparecida, o gnosticismo. Para os gnósticos, o Deus do Velho Testamento não era o mesmo que enviara Jesus, na verdade, as duas divindades seriam inimigas mortais. O Deus hebraico era monstruoso e sanguinário, e controlava apenas o mundo material. Já o universo espiritual seria dominado por um Deus bondoso, o pai de Jesus. A Bíblia editada por Marcião continha apenas o Evangelho de João, 11 cartas de Paulo e nenhuma página do Velho Testamento. Se as idéias de Marcião tivessem triunfado, hoje as histórias de Adão e Eva no paraíso, a arca de Noé e a travessia do mar Vermelho não fariam parte da cultura ocidental. Mas, por volta de 170, o gnosticismo foi declarado proibido pelas autoridades eclesiásticas, e o primeiro editor da Bíblia cristã acabou excomungado.


Constantino, o Grande
Roma, até então pior inimiga dos cristãos, ia se rendendo à nova fé. Em 313, o imperador romano Constantino se aliou à Igreja. Ele pretendia usar a força crescente da nova religião para fortalecer seu império. Para isso, no entanto, precisava de uma fé una e sólida. A pressão de Constantino levou os mais influentes bispos cristãos a se reunirem no Concílio de Nicéia, em 325, para colocar ordem na casa de Deus. Ali, surgiu o cânone do cristianismo, a lista oficial de livros que, segundo a Igreja, realmente haviam sido inspirados por Deus.

A escolha também era política. Um grupo afirmou seu poder e autoridade sobre os outros. Esse grupo era o dos cristãos apostólicos, que ganharam poder ao se aliar com o Império Romano. Os apostólicos eram, por assim dizer, o “partido do governo”. E por isso definiram o que iria entrar, ou ser eliminado, das Escrituras.

Eles escolheram os evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João para representar a biografia oficial de Cristo, enquanto as invenções dos docetas, dos ebionistas e de outras seitas foram excluídas, e seus autores declarados hereges. Os textos excluídos do cânone ganharam o nome de “apócrifos” – palavra que vem do grego apocrypha, “o que foi ocultado”. A maioria dos apócrifos se perdeu, afinal de contas, os escribas da Igreja não estavam interessados em recopiá-los para a posteridade. Mas, com o surgimento da arqueologia, no século 19, pedaços desses textos foram encontrados nas areias do Oriente Médio. É o caso de um polêmico texto encontrado em 1886 no Egito. Ele é assinado por uma certa “Maria”, que muitos acreditam ser a Madalena, discípula de Jesus, presente em vários trechos do Novo Testamento. O evangelho atribuído a ela é bem feminista: Madalena é descrita como uma figura tão importante quanto Pedro e os outros apóstolos. Nos primórdios do cristianismo, as mulheres eram aceitas no clero, e eram, inclusive, consideradas capazes de fazer profecias. Foi só no século 3 que o sacerdócio virou monopólio masculino, o que explicaria a censura da apóstola e seu testemunho. Aliás, Madalena não foi prostituta! Essa idéia surgiu por um erro na interpretação do livro sagrado. No ano 591, o papa Gregório fez um sermão dizendo que Madalena e outra mulher, também citada nas Escrituras e essa sim ex-pecadora, na verdade seriam a mesma pessoa. Em 1967, o Vaticano desfez o equívoco, limpando a reputação de Maria.



Maria Madalena por Pietro Perugino (c. 1500)



Na evolução da Bíblia, foram aparecendo vários trechos machistas e suspeitos. É o caso de uma passagem atribuída ao apóstolo Paulo: “A mulher aprenda (...) com toda a sujeição. Não permito à mulher que ensine, nem que tenha domínio sobre o homem (...) porque Adão foi formado primeiro, e depois Eva”. É provável que Paulo jamais tenha escrito essas palavras porque, na época em que ele viveu o cristianismo não pregava a submissão da mulher. Acredita-se que essa parte tenha sido adicionada por algum escriba por volta do século 2.

Vulgata
Após a conversão do imperador Constantino, o eixo do cristianismo se deslocou do Oriente Médio para Roma. Só que, para completar a romanização da fé, faltava um passo: traduzir a palavra de Deus para o latim. A missão coube ao teólogo Eusebius Hyeronimus, que mais tarde viria a ser canonizado com o nome de são Jerônimo. Sob ordens do papa Damaso, ele viajou a Jerusalém em 406 para aprender hebraico e traduzir o Antigo e o Novo Testamento. Não foi nada fácil: o trabalho durou 17 anos.

Daí saiu a Vulgata, a Bíblia latina, que até hoje é o texto oficial da Igreja Católica. Essa é a Bíblia que todo mundo conhece. A Vulgata foi o alicerce da Igreja no Ocidente. Ela é tão influente que até seus erros de tradução se tornaram clássicos. Ao traduzir uma passagem do Êxodo que descreve o semblante do profeta Moisés, são Jerônimo escreveu em latim: cornuta esse facies sua, ou seja, “sua face tinha chifres”. Esse detalhe esquisito foi levado a sério por artistas como Michelangelo – sua famosa escultura representando Moisés, hoje exposta no Vaticano, está ornada com dois belos corninhos. Tudo porque Jerônimo tropeçou na palavra hebraica karan, que pode significar tanto “chifre” quanto “raio de luz”. A tradução correta está na Septuaginta: o profeta tinha o rosto iluminado, e não chifrudo. Apesar de erros como esse, a Vulgata reinou absoluta ao longo da Idade Média e durante séculos não houve outras traduções.

Moisés de Michelangelo


O único jeito de disseminar o livro sagrado era copiá-lo à mão, tarefa realizada pelos monges copistas. Eles raramente saíam dos mosteiros e passavam a vida copiando e catalogando manuscritos antigos. Só que, às vezes, também se metiam a fazer o papel de autores.

Após a queda do Império Romano, grande parte da literatura da Antiguidade grega e romana se perdeu. Foi graças ao trabalho dos monges copistas que livros como a Ilíada e a Odisséia chegaram até nós. Mas alguns deles eram meio malandros: costumavam interpolar textos nas Escrituras Sagradas para agradar a reis e imperadores. No século 15, por exemplo, monges espanhóis trocaram o termo “babilônios” por “infiéis” no texto do Antigo Testamento – um truque para atacar os muçulmanos, que disputavam com os espanhóis a posse da península Ibérica.


Escrituras em série


Tudo isso mudou após a invenção da imprensa, em 1455. Agora ninguém mais dependia dos copistas para multiplicar os exemplares da Bíblia. Por isso, o grande foco de mudanças no texto sagrado passou a ser outro: as traduções. Em 1522, o pastor Martinho Lutero usou a imprensa para divulgar em massa sua tradução da Bíblia, que tinha feito direto do hebraico e do grego para o alemão. Era a primeira vez que o texto sagrado era vertido numa língua moderna. Logo depois um britânico, William Tyndale, traduziu a Bíblia para o inglês. No Novo Testamento, ele traduziu a palavra ecclesia por “congregação”, em vez de “igreja”, o termo preferido pelas traduções católicas. A mudança nessa palavrinha era um desafio ao poder dos papas: como era protestante, Tyndale tinha suas diferenças com a Igreja. Resultado? Ele foi queimado como herege em 1536. Mas até hoje seu trabalho é referência para as versões inglesas do livro sagrado.


Ilustração dos últimos momentos de Tyndale


A Bíblia chegou ao nosso idioma em 1753 quando foi publicada sua primeira tradução completa para o português, feita pelo protestante João Ferreira de Almeida. Hoje, a tradução considerada oficial é a feita pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e lançada em 2001. Ela é considerada mais simples e coloquial que as traduções anteriores. De lá para cá, a Bíblia ganhou o mundo e as línguas. Já foi vertida para mais de 300 idiomas e continua um dos livros mais influentes do mundo. Todos os anos são publicadas 11 milhões de cópias do texto integral, e 14 milhões só do Novo Testamento.

Depois de tantos séculos de versões e contra-versões, ainda não há consenso sobre a forma certa de traduzi-la. Alguns buscam traduções mais próximas do sentido e da época original, como as passagens traduzidas do hebraico pelo lingüista David Rosenberg na obra O Livro de J, de 1990. Outros acham que a Bíblia deve ser modernizada para atrair leitores. O lingüista Eugene Nida, que verteu a Bíblia na década de 1960, chegou ao extremo de traduzir a palavra “sestércios”, a antiga moeda romana, por “dólares”. Em 2008, duas versões igualmente ousadas agitaram as Escrituras: a Green Bible (“Bíblia Verde”, ainda sem versão em português), que destaca 1 000 passagens relacionadas à ecologia – como o momento em que Jó fala sobre os animais –, e a Bible Illuminated (‘Bíblia Iluminada”, em inglês), com design ultramoderno e fotos de celebridades como Nelson Mandela e Angelina Jolie.

Charles Darwin
A Bíblia se transforma, mas uma coisa não muda: cada pessoa, ou grupo de pessoas a interpreta de uma maneira diferente, às vezes com propósitos equivocados. Em pleno século 21, pastores fundamentalistas tentam proibir o ensino da Teoria da Evolução nas escolas dos EUA, sendo que a própria Igreja aceita as teorias de Darwin desde a década de 1950. Líderes como o pastor Jerry Falwell defendem o retorno da escravidão e o apedrejamento de adúlteros, e, no Oriente Médio, rabinos extremistas usam trechos da Torá para justificar a ocupação de terras árabes. Por quê? Porque está na Bíblia, dizem os radicais. Mas não é nada disso. A Bíblia não deve ser lida como um manual de regras literais, e sim, como o relato da jornada tortuosa e cheia de percalços do ser humano em busca de Deus. Porque esse é, afinal, o verdadeiro sentido dessa árvore de histórias regada há 3 mil anos por centenas de mãos, cabeças e corações humanos: a crença num sentido transcendente da existência.



Fonte: Revistas Aventuras na História, Super Interessante e Galileu
                                                                                             

                                                                                                 Leandro Matos

sábado, 19 de março de 2011

O Islamismo

O profeta Maomé
O Islamismo inspira multidões e cresce cada vez mais. Hoje é a religião que mais cresce no mundo. No final do século XX, ultrapassou o catolicismo em número de fiéis. Já há mais de 1 bilhão de muçulmanos no mundo. Esse crescimento se verifica até mesmo em áreas tradicionalmente cristãs, como a Europa, a África Ocidental e os Estados Unidos. Na Alemanha, eles são atualmente cerca de 3% da população, em sua maioria imigrantes de origem turca. No Brasil, estima-se que já exista mais de meio milhão de muçulmanos, principalmente me São Paulo, Brasília e Foz do Iguaçu. São descendentes de árabes e negros empenhados em recuperar suas raízes islâmicas.

O islã, reunindo elementos do judaísmo e do cristianismo, é considerado a última das três grandes religiões monoteístas, depois do judaísmo e do cristianismo. Para os muçulmanos, Maomé é o último dos profetas de Deus (Alá, para os árabes), numa linhagem que começa com Adão e passa por Noé, Abraão, Moisés, Davi, Salomão, João Batista e Jesus Cristo. Todos mensageiros de um mesmo Deus, Javé ou Alá. Vários princípios islâmicos vêm do judaísmo e do cristianismo, como o respeito aos Dez Mandamentos, o Juízo Final e a noção do Paraíso.

Como surgiu o islã:

Alcorão
Século VI. Na região desértica da Península Arábica viviam os sarracenos – beduínos nômades, de origem semítica, de pele clara, mas tostada pelo sol. Sua forma de organização social se baseava nas tribos, onde conviviam os clãs. Suas aldeias se erguiam em torno dos oásis, separados entre si por longas distâncias. A cidade mais importante da região era Meca. Não apenas por ser um posto de abastecimento de água para as caravanas, como também por estar situada numa encruzilhada de caminhos que levavam ao Egito, à Síria e à Mesopotâmia. Meca é, até hoje, um grande centro de peregrinação religiosa: ali está a Caaba (cubo), um edifício retangular, de pedra, com 15 metros de altura. Num de seus ângulos, encontra-se a famosa Pedra Negra (provavelmente um meteorito), que, segundo a tradição árabe, foi trazida pelo anjo Gabriel e em cujo interior até 630 havia centenas de ídolos.

Quando Maomé nasceu, por volta de 570, Meca era um próspero centro comercial. Aos 20 anos, ele passou a trabalhar para Kadidja, uma viúva rica da cidade, 15 anos mais velha, com a qual casou aos 25.
Com o casamento, Maomé pôde viajar a frente das caravanas da mulher, conhecendo terras, pessoas e novos costumes. Nessas viagens, despertou para a religião.

Pedra Negra
Aos 40 anos, durante o Ramadã, o mês de peregrinação a Meca e a Caaba, subiu com a família ao monte Hira, para o retiro tradicional. Certa manhã, ao acordar, teria visto um anjo que lhe disse: “Maomé, és o mensageiro de Alá e eu sou Gabriel”. Após a primeira revelação, vieram outras. Aos poucos, foi se convencendo de que era um profeta. O anjo teria ordenado que pregasse aos árabes. E o principal tema da pregação era a existência de um só deus, Alá.
Maomé atraiu a oposição dos governantes de Meca, pois atacava as crenças tradicionais, ameaçando assim os lucros que a cidade obtinha com a peregrinação anual a Caaba. Corria portanto sérios riscos em Meca, o que o levou a procurar outra cidade para morar. Atendendo ao convite formal de mercadores de Medina para se instalar nessa cidade, situada cerca de 300 quilômetros ao norte de Meca, seguiu para lá no ano de 622, levando por volta de 300 adeptos. Essa migração ou hégira (hijra, em árabe) de Meca para Medina marcou uma reviravolta na vida de Maomé. (A data foi depois adotada como ponto de partida do calendário muçulmano.) Do simples cidadão que era em Meca, tornou-se, em Medina, o chefe supremo da comunidade. Foi a partir daí, também, que o teor das revelações mudou.

Enquanto estivera em Meca, Maomé pregara a existência de um só deus e submissão total (islam em árabe) a ele. A ida para Medina deu condições para que suas propostas deixassem de ter um caráter apenas religioso e passassem a ter um caráter político, gerando um Estado muçulmano (o termo muçulmano vem do árabe muslim, que significa “submisso”). Teve início o djihad, a guerra santa de conquista de Meca, considerada a cidade sagrada do islã. As caravanas que saíam de Meca ou para lá se dirigiam eram assaltadas em nome de Alá.
Após vários anos de lutas, na primavera de 628, Maomé sentiu-se suficientemente forte para atacar Meca. Em 630, ele marchou sobre a cidade com 10 mil homens e a tomou sem enfrentar resistência. Destruiu os ídolos da Caaba, respeitando apenas a Pedra Negra. Em seguida, proclamou Meca a cidade santa do islã. Estavam assentadas as bases do Estado islâmico.
Maomé tinha então 60 anos e vivera apenas mais dois.

Caaba

O islamismo prega a obediência a um único deus. A frase “Não há outro Deus além de Alá e Maomé é o seu profeta” é a base de tudo. As revelações de Maomé são chamadas em árabe de quran, ou seja, “declamação”, “recitação”. Daí o nome Corão ou Alcorão (Al Quran), o livro sagrado dos muçulmanos. No dia-a-dia, o livro é recitado na porta das mesquitas e nas cinco orações diárias. Alem do Corão, existe uma outra fonte de revelação feita por Alá: a sunna ou “tradição”, que é o relato da vida, da palavra e das ações de Maomé. Hoje, 90% dos muçulmanos são sunitas, seguidores da sunna. Os 10% restantes são xiitas, seguidores da shi´at “facção”, que obedecem exclusivamente às palavras do Corão.

O islã exige o cumprimento dos seguintes preceitos: crer em um único deus, Alá; orar cinco vezes ao dia, com a cabeça voltada em direção a Meca; praticar a caridade; jejuar no Ramadã; orar em comum ao meio-dia da sexta-feira e fazer a peregrinação à cidade santa ao menos uma vez na vida.

O Corão diz: “O sincero é o combatente”. Em outro trecho, afirma: “Matem os infiéis onde quer que eles estejam; prendam-nos, ataquem-nos e preparem contra eles todos os tipos de emboscadas”. Além de inumeras partes de reflexão religiosa e espiritual, é claro. A pregação monoteísta de Maomé poderia ser  (e acabou sendo) interpretada como uma pregação à prática de guerra. Os califas que o sucederam politicamente utilizaram-se do conceito de djihad (“guerra santa”) para impulsionar o expansionismo árabe.
Num momento em que o Império Romano do Ocidente havia desmoronado e os impérios Bizantino e Persa se esfacelavam, os árabes expandiram consideravelmente seus territórios. Em menos de 100 anos o islã era a religião de toda a costa sul e leste do Mediterrâneo, além de ter se espalhado pela Pérsia, até o vale do Indo, e para a Península Ibérica. A partir da Península Ibérica os árabes pretendiam dominar a Europa do reino franco. Mas em 732 foram contidos pelos francos, sob a liderança militar de Carlos Martel, na Batalha de Poitiers, no sul da França.

Muçulmanos fazendo orações no Ramadã

Em função de tantas conquistas, a civilização árabe viveu seu apogeu. Ela sintetizou, criativamente, as tradições culturais árabe, bizantina, indiana, persa e grega. Encantada pelo contato com os livros de ciência dos gregos, traduziu os livros de Euclides, Aristóteles, Ptolomeu e outros, contribuindo, dessa forma, para preservá-los. Tantas assimilações em tantas direções fizeram de muitos árabes astrônomos, médicos, filósofos, arquitetos e alquimistas.
A alquimia era uma mistura de ciência, arte e magia que foi se desenvolvendo até se transformar numa forma inicial da química. O maior alquimista árabe foi Jabir Ibn Hayyan, que pesquisava métodos para se obter um agente capaz de transformar outros metais em ouro. Para o homem medieval a busca do ouro era a busca da perfeição. Daí muitos considerarem que, se ingerido, o agente capaz de transformar metais em ouro também conferisse a imortalidade. Esse agente passou a ser conhecido como a “pedra filosofal”. Os esforços de Jabir mostraram-se inúteis, mas suas pesquisas demonstravam sua familiaridade com métodos químicos ainda hoje utilizados, como a sublimação, a cristalização e a destilação.

Outra alquimia árabe, no sentido metafórico, ocorreu na literatura: As mil e uma noites, um livro que mistura histórias da Índia, da Pérsia, da Ásia Menor, enfim, do mundo conquistado pelos árabes. Seus contos têm fascinado o mundo inteiro e influenciado grandes escritores, como os franceses Victor Hugo, Voltaire e outros tantos.


                                                                                                   Leandro Matos

quinta-feira, 17 de março de 2011

Hebreus - História resumida

Estrela de Davi
Antepassados do povo judeu, os hebreus têm uma história marcada pela migração e pelo monoteísmo. Foram o primeiro povo realmente monoteísta da história, e o culto a Jeová foi o elemento que unificou os hebraicos contra os inimigos externos.
Segundo a tradição, Abraão, o patriarca fundador da nação hebraica, nascido em Ur (Mesopotâmia) por volta do século XIX a.C., recebeu de Deus a missão de migrar para Canaã, terra dos cananeus, depois chamada de Palestina, onde se localiza hoje o estado de Israel. Os hebreus eram pastores originalmente nômades provenientes da região da Mesopotâmia. Eles viveram cerca de dois séculos na região de Canaã dedicando-se a agricultura e ao pastoreio. Crescentes dificuldades econômicas provocaram a migração de muitos hebreus para as regiões férteis às margens do Nilo. Com isso eles acabaram chegando ao Egito, onde viveram entre 300 e 400 anos e, segundo a tradição bíblica, foram escravizados.

Sua história ganha força a partir do momento em que decidem sair do Egito. A volta dos hebreus a Canaã é conhecida como êxodo, e teria durado cerca de 40 anos. Segundo a bíblia, foi durante essa viagem que Moisés, no alto do Monte Sinai, recebeu de Jeová a Tábua dos Dez Mandamentos, que deveria guiar o comportamento dos hebreus.


O patriarca Josué, que substituiu Moisés ainda durante a volta à Canaã, liderou a luta pela reconquista do território dos hebreus, que estava ocupado por vários povos organizados em tribos. Essa luta elevou a importância dos juízes, nomeados para comandar a expulsão da tribo dos filisteus em Canaã. Samuel, o último dos juízes, tentou promover a união das doze tribos hebraicas que ocupavam a região, mas isso só ocorreria sob a liderança de Saul, considerado o primeiro rei dos hebreus.

O sucessor de Saul, Davi, garantiu a consolidação do estado hebraico, caracterizado pela centralização do poder nas mãos do rei, que ainda exercia as funções de chefe político, militar e religioso. Davi foi sucedido pelo rei Salomão, que construiu o templo de Jerusalém, entre outras obras públicas, fez uma aliança comercial com os fenícios, que dominavam o comércio mediterrâneo, e também instituiu inúmeras datas religiosas. Além disso, decretou o trabalho compulsório, explorando sobretudo a população camponesa.

Pastores Judeus

A política social e os altos impostos criados por Salomão geraram um grande descontentamento popular, que explodiu com a sua morte (cerca de 930 a.C.), provocando a Cisma, isto é, a separação das doze tribos hebraicas em dois reinos: Israel e Judá.

Israel reunia as dez tribos do norte e tinha como capital Samaria, já o reino de Judá era formado por duas tribos do sul, e sua capital era Jerusalém. A divisão favoreceu a invasão estrangeira. O rei babilônico Nabucodonosor II dominou a região, levando os hebreus para a Babilônia, período que ficou conhecido como Cativeiro da Babilônia.
Em 539 a.C. os Persas conquistaram o território babilônico e permitiram a volta dos hebreus para a Palestina (Canaã). Em 333 a.C. a Palestina foi dominada por Alexandre Magno, da Macedônia, mas tempos depois voltou a ser libertada.

Em 70 d.C. a Palestina era uma província do Império Romano; as muitas rebeliões levaram os romanos a expulsar os hebreus da região, assim eles se dispersaram pelo império. Esse período ficou conhecido como Diáspora.

Até 1948, quando foi fundado o estado de Israel, os hebreus, agora já tratados como judeus, viveram sem pátria; atualmente são os palestinos que não têm pátria, pois suas terras foram ocupadas pelos israelenses, sendo esse um dos motivos para os intermináveis conflitos entres esses dois povos.

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