quinta-feira, 24 de março de 2011

Quem escreveu a Bíblia?


A história de Deus foi escrita pelos homens. Mas quem é o autor do livro mais influente de todos os tempos?

Em algum lugar do Oriente Médio, por volta do século 10 a.C., uma pessoa decidiu escrever um livro. Pegou uma pena, nanquim e folhas de papiro e começou a contar uma história mágica, diferente de tudo o que já havia sido escrito. Era tão forte que virou uma obsessão. Durante os 1 000 anos seguintes, outras pessoas continuariam reescrevendo, rasurando e compilando aquele texto, que viria a se tornar o maior Best seller de todos os tempos: a Bíblia. Ela apresentou uma teoria para o surgimento do homem, trouxe os fundamentos do judaísmo e do cristianismo, influenciou o surgimento do islã, mudou a história da arte e nos legou noções básicas da vida moderna, como os direitos humanos e o livre-arbítrio. Mas quem escreveu, afinal, o livro mais importante que a humanidade já viu? Quem eram e o que pensavam essas pessoas? Como criaram o enredo, e quem ditou a voz e o estilo de Deus? O que está na Bíblia deve ser levado ao pé da letra, o que até hoje provoca conflitos armados? A resposta tradicional você já conhece: segundo a tradição judaico-cristã, o autor da Bíblia é o próprio Todo-Poderoso. E ponto final. Mas a verdade é um pouco mais complexa que isso.

A bíblia não foi enviada a nós por fax. A própria Igreja admite que a revelação divina só veio até nós por meio de mãos humanas. A palavra do Senhor é sagrada, mas foi escrita por reles mortais. Como não sobraram vestígios nem evidências concretas da maioria deles, a chave para encontrá-los está na própria Bíblia. Mas ela não é um simples livro: imagine as Escrituras como uma biblioteca inteira, que guarda textos montados pelo tempo, pela história e pela fé. Aliás, o termo “Bíblia”, que usamos no singular, vem do plural grego ta biblia ta hagia – “os livros sagrados”. A tradição religiosa sempre sustentou que cada livro bíblico foi escrito por um autor claramente identificável. Os 5 primeiros livros do Antigo Testamento (que no judaísmo se chamam Torá e no catolicismo Pentateuco) teriam sido escritos pelo profeta Moisés por volta de 1200 a.C. Os Salmos seriam obra do rei Davi, o autor de Juízes seria o profeta Samuel, e assim por diante. Hoje, a maioria dos estudiosos acredita que os livros sagrados foram um trabalho coletivo. E há uma boa explicação para isso.



Estátua de Gilgamesh, Universidade de Sidney, Austrália
As histórias da Bíblia derivam de lendas surgidas na chamada Terra de Canaã, que hoje corresponde a Líbano, Palestina, Israel e pedaços da Jordânia, do Egito e da Síria. Durante séculos acreditou-se que Canaã fora dominada pelos hebreus. Mas descobertas recentes da arqueologia revelam que, na maior parte do tempo, Canaã não foi um Estado, mas uma terra sem fronteiras habitada por diversos povos – os hebreus eram apenas uma entre muitas tribos que andavam por ali. Por isso, sua cultura e seus escritos foram fortemente influenciados por vizinhos como os cananeus, que viviam ali desde o ano 5000 a.C. E eles não foram os únicos a influenciar as histórias do livro sagrado.

As raízes da árvore bíblica também remontam aos sumérios, antigos habitantes do atual Iraque, que no 3º milênio a.C. escreveram a Epopéia de Gilgamesh. Essa história, protagonizada pelo semideus Gilgamesh, menciona uma enchente que devasta o mundo, da qual algumas pessoas se salvam construindo um barco. Notou semelhanças com a Bíblia e seus textos sobre o dilúvio, a arca de Noé, o fato de Cristo ser humano e divino ao mesmo tempo? Não é mera coincidência. A Bíblia era uma obra aberta, com influência de muitas culturas.


Foi entre os séculos 10 e 9 a.C. que os escritores hebreus começaram a colocar essa sopa multicultural no papel. Isso aconteceu após o reinado de Davi, que teria unificado as tribos hebraicas num pequeno e frágil reino por volta do ano 1000 a.C. A primeira versão das Escrituras foi redigida nessa época e corresponde à maior parte do que hoje são o Gênesis e o Êxodo. Nesses livros, o tema principal é a relação passional, e às vezes conflituosa, entre Deus e os homens. Só que, logo no começo da Bíblia, já existiu uma divergência sobre o papel do homem e do Senhor na história toda. Isso porque o personagem principal, Deus, é tratado por dois nomes diferentes.

Em alguns trechos ele é chamado pelo nome próprio, Yahweh – traduzido em português como Javé ou Jeová. É um tratamento informal, como se o autor fosse íntimo de Deus. Em outros pontos, o Todo-Poderoso é chamado de Elohim, um título respeitoso e distante que pode ser traduzido simplesmente como “Deus”. Como se explica isso? Para os fundamentalistas, não tem conversa: Moisés escreveu tudo sozinho e usou os dois nomes simplesmente porque quis. Só que um trecho desse texto narra a morte do próprio Moisés. Como ele narraria a própria morte? Isso indica que ele não é o único autor. Os historiadores e a maioria dos religiosos aceitam outra teoria: esses textos tiveram pelo menos outros dois editores.

Acredita-se que os trechos que falam de Javé sejam os mais antigos, escritos numa época em que a religiosidade era menos formal. Eles contêm uma passagem reveladora: antes da criação do mundo, “Yahweh não derramara chuva sobre a terra, e nem havia homem para lavrar o solo”. Essa frase, “não havia homem para lavrar o solo”, indica que, na primeira versão da Bíblia, o homem não era apenas mais uma criação de Deus – ele desempenha um papel ativo e fundamental na história toda. Nesse relato, o homem é tido como co-criador do mundo.

Pelo nome que usa para se referir a Deus (Javé), o autor desses trechos foi apelidado de Javista. Já o outro autor, que teria vivido por volta de 850 a.C., é apelidado de Eloísta. Mais sisudo e religioso, ele compôs uma narrativa bastante diferente. Ao contrário do Deus-Javé, que fez o mundo num único dia, o Deus-Elohim levou 6 (e descansou no 7º). Nessa história, a criação é um ato exclusivo de Deus, e o homem surge apenas no 6º dia, junto aos animais.

Tempos mais tarde, os dois relatos foram misturados por editores anônimos – e a narrativa do Eloísta, mais comportada, foi parar no início das Escrituras. Começando por aquela frase incrivelmente simples e poderosa, notória até entre quem nunca leu a Bíblia: “E, no início, Deus criou o céu e a terra...”

Torá


Em 589 a.C., Jerusalém foi arrasada pelos babilônios, e grande parte da população foi aprisionada e levada para Babilônia. Décadas depois, os hebreus foram libertados por Ciro, senhor do Império Persa – um conquistador “esclarecido”, que tinha tolerância religiosa. Aos poucos, os hebreus retornaram a Canaã – mas com sua fé transformada. Agora os sacerdotes judaicos rejeitavam o politeísmo e diziam que Javé era o único e absoluto deus do Universo. O monoteísmo pode ter surgido pelo contato com os persas – a religião deles, o masdeísmo, pregava a existência de um deus bondoso, Ahura Mazda, em constante combate contra um deus maligno, Arimã. Essa noção se reflete até na idéia cristã de um combate entre Deus e o Diabo.

Ilustração de Esdras
A versão final do Pentateuco surgiu por volta de 389 a.C. Nessa época, um religioso chamado Esdras liderou um grupo de sacerdotes que mudaram radicalmente o judaísmo, a começar por suas escrituras. Eles editaram os livros anteriores e escreveram a maior parte dos livros Deuteronômio, Números, Levítico e também um dos pontos altos da Bíblia: os 10 Mandamentos. Além de afirmar o monoteísmo sem sombra de dúvidas - “amarás a Deus acima de todas as coisas” - é o primeiro mandamento, a reforma conduzida por Esdras impunha leis religiosas bem rígidas, como a proibição do casamento entre hebreus e não-hebreus. Algumas das leis encontradas no Levítico se assemelham à ética moderna dos direitos humanos: “Se um estrangeiro vier morar convosco, não o maltrates. Ama-o como se fosse um de vós”.

Outras passagens, no entanto, descrevem um Senhor belicoso, vingativo e sanguinário, que ordena o extermínio de cidades inteiras não poupando nem mulheres nem crianças. Se a religião prega a compaixão, por que os textos sagrados têm tanto ódio? Para os especialistas, a violência do Antigo Testamento é fruto dos séculos de guerras com os assírios e os babilônios. Os autores do livro sagrado foram influenciados por essa atmosfera de ódio, e daí surgiram as histórias em que Deus se mostra bastante violento e até cruel. Os redatores da Bíblia estavam extravasando sua angústia.

Por volta do ano 200 a.C., o cânone (conjunto de livros sagrados) hebraico já estava finalizado e começou a se alastrar pelo Oriente Médio. A primeira tradução completa do Antigo Testamento é dessa época. Ela foi feita a mando do rei Ptolomeu 2º em Alexandria, no Egito, grande centro cultural da época. Segundo uma lenda, essa tradução (de hebraico para grego) foi realizada por 72 sábios judeus. Por isso, o texto é conhecido como Septuaginta. Além da tradução grega, também surgiram versões do Antigo Testamento no idioma aramaico, que era uma espécie de língua franca do Oriente Médio naquela época.


Dois séculos mais tarde, a Bíblia em aramaico estava bombando: ela era a mais lida na Judéia, na Samária e na Galiléia (províncias que formam os atuais territórios de Israel e da Palestina). Foi aí que um jovem judeu, grande personagem desta história, começou a se destacar. Como Sócrates, Buda e outros pensadores que mudaram o mundo, Jesus de Nazaré nada deixou por escrito. Os primeiros textos sobre ele foram produzidos décadas após sua morte.

Cristo Pantocrator, mosaico. Catedral de Cefalù
E o cristianismo já nasceu perseguido: por se recusarem a cultuar os deuses oficiais, os cristãos eram considerados subversivos pelo Império Romano, que dominava boa parte do Oriente Médio desde o século 1 a.C. Foi nesse clima de medo que os cristãos passaram a colocar no papel as histórias de Jesus, que circulavam em aramaico e também em coiné – um dialeto grego falado pelos mais pobres. Os cristãos queriam compreender suas origens e debater seus problemas de identidade. Para fazer isso, criaram um novo gênero literário: o evangelho. Esse termo, que vem do grego evangélion (“boa-nova”), é um tipo de narrativa religiosa contando os milagres, os ensinamentos e a vida do Messias.

A maioria dos evangelhos escritos nos séculos 1 e 2 desapareceram. Naquela época, um “livro” era um amontoado de papiros avulsos, enrolados em forma de pergaminho, podendo ser facilmente extraviados e perdidos. Mas alguns evangelhos foram copiados e recopiados à mão, por membros da Igreja. Até que, por volta do século 4, tomaram o formato de códice (um conjunto de folhas de couro encadernadas, ancestral do livro moderno). O problema é que, a essa altura do campeonato, gerações e gerações de copiadores já haviam introduzido alterações nos textos originais, seja por descuido, seja de propósito. Muitos erros foram feitos nas cópias, erros que às vezes mudaram o sentido dos textos. Em certos casos, tais erros foram também propositais, de acordo com a teologia do escrivão. Quer ver um exemplo?


Sabe aquela famosa cena em que Jesus salva uma adúltera prestes a ser apedrejada? De acordo com especialistas, esse trecho foi inserido no Evangelho de João por algum escriba, por volta do século 3. Isso porque, na época, o cristianismo estava cortando seu cordão umbilical com o judaísmo. E apedrejar adúlteras é uma das leis que os sacerdotes-escritores judeus haviam colocado no Pentateuco. A introdução da cena em que Jesus salva a adúltera passa a idéia de que os ensinamentos de Cristo haviam superado a Torá e, portanto, os cristãos já não precisavam respeitar ao pé da letra todos os ensinamentos judeus.

A julgar pelo último livro da Bíblia cristã, o Apocalipse, que descreve o fim do mundo, o receio de ter suas narrativas “editadas” era comum entre os autores do Novo Testamento. No versículo 18, lê-se uma terrível ameaça: “Se alguém fizer acréscimos às páginas deste livro, Deus o castigará com as pragas descritas aqui”. Essa ameaça reflete bem o clima dos primeiros séculos do cristianismo: uma verdadeira baderna teológica, com montes de seitas defendendo idéias diferentes sobre Deus e o Messias. A seita dos docetas, por exemplo, acreditava que Jesus não teve um corpo físico. Ele seria um espírito, e sua crucificação e morte não passariam de ilusão de ótica. Já os ebionistas acreditavam que Jesus não nascera Filho de Deus, mas fora adotado, já adulto, pelo Senhor. A primeira tentativa de organizar esse caos das Escrituras ocorreu por volta do ano 142, e o responsável não foi um clérigo, mas um rico comerciante de navios chamado Marcião.


A Bíblia segundo Marcião


 
Marcião
Ele nasceu na atual Turquia, foi para Roma, converteu-se ao cristianismo, virou um teólogo influente e resolveu montar sua própria seleção de textos sagrados. A Bíblia de Marcião era bem diferente da que conhecemos hoje. Isso porque ele simpatizava com uma seita cristã hoje desaparecida, o gnosticismo. Para os gnósticos, o Deus do Velho Testamento não era o mesmo que enviara Jesus, na verdade, as duas divindades seriam inimigas mortais. O Deus hebraico era monstruoso e sanguinário, e controlava apenas o mundo material. Já o universo espiritual seria dominado por um Deus bondoso, o pai de Jesus. A Bíblia editada por Marcião continha apenas o Evangelho de João, 11 cartas de Paulo e nenhuma página do Velho Testamento. Se as idéias de Marcião tivessem triunfado, hoje as histórias de Adão e Eva no paraíso, a arca de Noé e a travessia do mar Vermelho não fariam parte da cultura ocidental. Mas, por volta de 170, o gnosticismo foi declarado proibido pelas autoridades eclesiásticas, e o primeiro editor da Bíblia cristã acabou excomungado.


Constantino, o Grande
Roma, até então pior inimiga dos cristãos, ia se rendendo à nova fé. Em 313, o imperador romano Constantino se aliou à Igreja. Ele pretendia usar a força crescente da nova religião para fortalecer seu império. Para isso, no entanto, precisava de uma fé una e sólida. A pressão de Constantino levou os mais influentes bispos cristãos a se reunirem no Concílio de Nicéia, em 325, para colocar ordem na casa de Deus. Ali, surgiu o cânone do cristianismo, a lista oficial de livros que, segundo a Igreja, realmente haviam sido inspirados por Deus.

A escolha também era política. Um grupo afirmou seu poder e autoridade sobre os outros. Esse grupo era o dos cristãos apostólicos, que ganharam poder ao se aliar com o Império Romano. Os apostólicos eram, por assim dizer, o “partido do governo”. E por isso definiram o que iria entrar, ou ser eliminado, das Escrituras.

Eles escolheram os evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João para representar a biografia oficial de Cristo, enquanto as invenções dos docetas, dos ebionistas e de outras seitas foram excluídas, e seus autores declarados hereges. Os textos excluídos do cânone ganharam o nome de “apócrifos” – palavra que vem do grego apocrypha, “o que foi ocultado”. A maioria dos apócrifos se perdeu, afinal de contas, os escribas da Igreja não estavam interessados em recopiá-los para a posteridade. Mas, com o surgimento da arqueologia, no século 19, pedaços desses textos foram encontrados nas areias do Oriente Médio. É o caso de um polêmico texto encontrado em 1886 no Egito. Ele é assinado por uma certa “Maria”, que muitos acreditam ser a Madalena, discípula de Jesus, presente em vários trechos do Novo Testamento. O evangelho atribuído a ela é bem feminista: Madalena é descrita como uma figura tão importante quanto Pedro e os outros apóstolos. Nos primórdios do cristianismo, as mulheres eram aceitas no clero, e eram, inclusive, consideradas capazes de fazer profecias. Foi só no século 3 que o sacerdócio virou monopólio masculino, o que explicaria a censura da apóstola e seu testemunho. Aliás, Madalena não foi prostituta! Essa idéia surgiu por um erro na interpretação do livro sagrado. No ano 591, o papa Gregório fez um sermão dizendo que Madalena e outra mulher, também citada nas Escrituras e essa sim ex-pecadora, na verdade seriam a mesma pessoa. Em 1967, o Vaticano desfez o equívoco, limpando a reputação de Maria.



Maria Madalena por Pietro Perugino (c. 1500)



Na evolução da Bíblia, foram aparecendo vários trechos machistas e suspeitos. É o caso de uma passagem atribuída ao apóstolo Paulo: “A mulher aprenda (...) com toda a sujeição. Não permito à mulher que ensine, nem que tenha domínio sobre o homem (...) porque Adão foi formado primeiro, e depois Eva”. É provável que Paulo jamais tenha escrito essas palavras porque, na época em que ele viveu o cristianismo não pregava a submissão da mulher. Acredita-se que essa parte tenha sido adicionada por algum escriba por volta do século 2.

Vulgata
Após a conversão do imperador Constantino, o eixo do cristianismo se deslocou do Oriente Médio para Roma. Só que, para completar a romanização da fé, faltava um passo: traduzir a palavra de Deus para o latim. A missão coube ao teólogo Eusebius Hyeronimus, que mais tarde viria a ser canonizado com o nome de são Jerônimo. Sob ordens do papa Damaso, ele viajou a Jerusalém em 406 para aprender hebraico e traduzir o Antigo e o Novo Testamento. Não foi nada fácil: o trabalho durou 17 anos.

Daí saiu a Vulgata, a Bíblia latina, que até hoje é o texto oficial da Igreja Católica. Essa é a Bíblia que todo mundo conhece. A Vulgata foi o alicerce da Igreja no Ocidente. Ela é tão influente que até seus erros de tradução se tornaram clássicos. Ao traduzir uma passagem do Êxodo que descreve o semblante do profeta Moisés, são Jerônimo escreveu em latim: cornuta esse facies sua, ou seja, “sua face tinha chifres”. Esse detalhe esquisito foi levado a sério por artistas como Michelangelo – sua famosa escultura representando Moisés, hoje exposta no Vaticano, está ornada com dois belos corninhos. Tudo porque Jerônimo tropeçou na palavra hebraica karan, que pode significar tanto “chifre” quanto “raio de luz”. A tradução correta está na Septuaginta: o profeta tinha o rosto iluminado, e não chifrudo. Apesar de erros como esse, a Vulgata reinou absoluta ao longo da Idade Média e durante séculos não houve outras traduções.

Moisés de Michelangelo


O único jeito de disseminar o livro sagrado era copiá-lo à mão, tarefa realizada pelos monges copistas. Eles raramente saíam dos mosteiros e passavam a vida copiando e catalogando manuscritos antigos. Só que, às vezes, também se metiam a fazer o papel de autores.

Após a queda do Império Romano, grande parte da literatura da Antiguidade grega e romana se perdeu. Foi graças ao trabalho dos monges copistas que livros como a Ilíada e a Odisséia chegaram até nós. Mas alguns deles eram meio malandros: costumavam interpolar textos nas Escrituras Sagradas para agradar a reis e imperadores. No século 15, por exemplo, monges espanhóis trocaram o termo “babilônios” por “infiéis” no texto do Antigo Testamento – um truque para atacar os muçulmanos, que disputavam com os espanhóis a posse da península Ibérica.


Escrituras em série


Tudo isso mudou após a invenção da imprensa, em 1455. Agora ninguém mais dependia dos copistas para multiplicar os exemplares da Bíblia. Por isso, o grande foco de mudanças no texto sagrado passou a ser outro: as traduções. Em 1522, o pastor Martinho Lutero usou a imprensa para divulgar em massa sua tradução da Bíblia, que tinha feito direto do hebraico e do grego para o alemão. Era a primeira vez que o texto sagrado era vertido numa língua moderna. Logo depois um britânico, William Tyndale, traduziu a Bíblia para o inglês. No Novo Testamento, ele traduziu a palavra ecclesia por “congregação”, em vez de “igreja”, o termo preferido pelas traduções católicas. A mudança nessa palavrinha era um desafio ao poder dos papas: como era protestante, Tyndale tinha suas diferenças com a Igreja. Resultado? Ele foi queimado como herege em 1536. Mas até hoje seu trabalho é referência para as versões inglesas do livro sagrado.


Ilustração dos últimos momentos de Tyndale


A Bíblia chegou ao nosso idioma em 1753 quando foi publicada sua primeira tradução completa para o português, feita pelo protestante João Ferreira de Almeida. Hoje, a tradução considerada oficial é a feita pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e lançada em 2001. Ela é considerada mais simples e coloquial que as traduções anteriores. De lá para cá, a Bíblia ganhou o mundo e as línguas. Já foi vertida para mais de 300 idiomas e continua um dos livros mais influentes do mundo. Todos os anos são publicadas 11 milhões de cópias do texto integral, e 14 milhões só do Novo Testamento.

Depois de tantos séculos de versões e contra-versões, ainda não há consenso sobre a forma certa de traduzi-la. Alguns buscam traduções mais próximas do sentido e da época original, como as passagens traduzidas do hebraico pelo lingüista David Rosenberg na obra O Livro de J, de 1990. Outros acham que a Bíblia deve ser modernizada para atrair leitores. O lingüista Eugene Nida, que verteu a Bíblia na década de 1960, chegou ao extremo de traduzir a palavra “sestércios”, a antiga moeda romana, por “dólares”. Em 2008, duas versões igualmente ousadas agitaram as Escrituras: a Green Bible (“Bíblia Verde”, ainda sem versão em português), que destaca 1 000 passagens relacionadas à ecologia – como o momento em que Jó fala sobre os animais –, e a Bible Illuminated (‘Bíblia Iluminada”, em inglês), com design ultramoderno e fotos de celebridades como Nelson Mandela e Angelina Jolie.

Charles Darwin
A Bíblia se transforma, mas uma coisa não muda: cada pessoa, ou grupo de pessoas a interpreta de uma maneira diferente, às vezes com propósitos equivocados. Em pleno século 21, pastores fundamentalistas tentam proibir o ensino da Teoria da Evolução nas escolas dos EUA, sendo que a própria Igreja aceita as teorias de Darwin desde a década de 1950. Líderes como o pastor Jerry Falwell defendem o retorno da escravidão e o apedrejamento de adúlteros, e, no Oriente Médio, rabinos extremistas usam trechos da Torá para justificar a ocupação de terras árabes. Por quê? Porque está na Bíblia, dizem os radicais. Mas não é nada disso. A Bíblia não deve ser lida como um manual de regras literais, e sim, como o relato da jornada tortuosa e cheia de percalços do ser humano em busca de Deus. Porque esse é, afinal, o verdadeiro sentido dessa árvore de histórias regada há 3 mil anos por centenas de mãos, cabeças e corações humanos: a crença num sentido transcendente da existência.



Fonte: Revistas Aventuras na História, Super Interessante e Galileu
                                                                                             

                                                                                                 Leandro Matos

quarta-feira, 23 de março de 2011

O Brasil também teve campos de concentração

Durante a 2ª Guerra, também tivemos nossos campos de concentração - onde japoneses, italianos e principalmente alemães ficaram confinados. Conheça as histórias dessas pessoa.

Manhã de 2 de março de 1944. Na Estação Experimental de Produção Animal de Pindamonhangaba, uma fazenda no interior de São Paulo, ouviu-se um som que não era comum no local. Era o choro de uma criança nascendo. Mas não uma criança qualquer. O choro era de Carlos Johanes Braak, o único brasileiro nascido em um campo de concentração - e em seu próprio país. Durante a 2ª Guerra Mundial, o Brasil manteve 31 campos de concentração, para onde mandava os cidadãos de países do Eixo - a coligação formada por Itália, Japão e Alemanha. Os pais de Carlos, que eram alemães, estavam entre as centenas de pessoas que viveram esse lado menos cordial da história brasileira. "Era uma fazenda. O estábulo virou um dormitório. Minha mãe ficava numa casa, separada. Foi onde passei os dois primeiros anos da minha vida", lembra Carlos.

O pai de Carlos se chamava August Braak. Sua mãe, Hildegard Lange. Eles partiram de Hamburgo, na Alemanha, em direção à Cidade do Cabo, na África do Sul. Estavam a bordo de um navio chamado Windhuk, no qual August trabalhava como comissário e tesoureiro.

O Windhuk era uma embarcação turística, mas também coletava mercadorias. Quando a 2ª Guerra começou o navio já estava no continente africano - em Lobito, Angola, recebendo um carregamento de laranjas. O navio não tinha como voltar para a Alemanha em guerra, pois estava sendo perseguido por embarcações inglesas. O capitão decidiu fugir para o Brasil. A embarcação acabou chegando ao Porto de Santos disfarçada de navio japonês, com o nome de Santos Maru, em 7 de dezembro de 1939.

Porto de Santos na época

Assim que o navio chegou aqui, ficou evidente que ele não era japonês coisa nenhuma. Mas os alemães foram bem recebidos. August e Hidelgard, bem como os outros 242 tripulantes, viviam em Santos e redondezas. Alguns moravam no próprio barco, outros, em pensões. Todos recebiam salários do governo alemão, e levavam uma boa vida. Em 19 de abril de 1940, os pais de Carlos se casaram numa festa a bordo do navio. 

Mas, em 1942, tudo mudou. O Brasil rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo - cujos cidadãos passaram a ser considerados inimigos. "O governo brasileiro precisava fazer isso [criar os campos de concentração] para se alinhar com as estratégias dos Aliados e dos EUA", explica a pesquisadora Priscila Perazzo, autora do livro Prisioneiros da Guerra (Ed. Humanitas). Alguns estrangeiros foram mandados para presídios comuns - como os de Ilha Grande e Ilha das Flores (RJ). Mas a maioria foi para campos de concentração, organizados pelo Ministério da Justiça.

Os pais de Carlos foram parar num desses campos - a fazenda em Pindamonhangaba, onde ficaram confinados 136 alemães do navio Windhuk. Eles foram presos porque seu navio tinha chegado ao Brasil durante a guerra, coisa que o governo interpretou como uma ameaça.

Os prisioneiros não podiam manter suas tradições. Nada de ler livros em alemão, por exemplo. Mas o clima era relativamente tranquilo. Alguns prisioneiros podiam visitar o centro da cidade aos sábados, aonde iam acompanhados pelos guardas. "Era comum os presos chegarem carregando os fuzis dos guardas, que sempre voltavam bêbados", diz Carlos.

Navio Windhuk, que saiu de Hamburgo, na Alemanha, em direção a Cidade do Cabo, África


Trabalhos forçados 

A outra parte da tripulação do navio foi parar no campo de Guaratinguetá - entre eles Horst Judes, também tripulante do Windhuk, que tinha 19 anos. Quando desembarcou em Santos, foi um dos que ficaram vivendo no navio, até ser preso em 1942. No campo de concentração de Guarantinguetá, o tratamento não era tão bom. "Éramos obrigados a trabalhar no campo", conta o alemão, hoje com 87 anos e dono de uma chácara no interior de São Paulo. A rotina no campo de Guarantinguetá era acordar cedo, pegar enxada e picareta e dar duro. Cada prisioneiro levava um número nas costas. "O meu era 17", conta Horst. O café da manhã tinha dois pãezinhos e uma caneca de café. No almoço e no jantar era só arroz com feijão. As quintas e aos domingos, era dia de macarrão. Mas a comida nem sempre era suficiente, e os prisioneiros dependiam de padrinhos, geralmente alemães livres, que os ajudavam de diversas maneiras. Alemães livres? Sim. A maior parte dos imigrantes não foi presa. Iam para os campos aqueles que chegavam ao Brasil em plena guerra, ou eram suspeitos de espionagem.

Foi graças a esse apadrinhamento que Horst conseguiu sobreviver depois de ser solto, em 1945. "Saímos do campo sem dinheiro nem emprego. Foram os padrinhos que nos ajudaram. O meu era de São Paulo. Trabalhei como mordomo e até como taxista", conta. Como a maioria desses estrangeiros, ele também constituiu uma família brasileira, e diz gostar do país que adotou de maneira forçada.

Na época, o governo brasileiro fazia de tudo para mostrar que os prisioneiros de guerra eram bem tratados - o que nem sempre era verdade. O tempo de internamento variava. Houve pessoas que ficaram 3 anos presas, mas outras conseguiam ser libertadas mais cedo. Também é difícil definir exatamente o número de presos que foram mandados para os campos de concentração brasileiros entre 1942 e 1945, pois os registros são vagos. Mas existe uma documentação que revela nomes e, em alguns campos, o número exato de prisioneiros que passaram por lá. Os registros comprovam que a maioria era de alemães, seguidos de japoneses em bem menor número, italianos e um ou outro austríaco.

Oficiais do navio Windhuk


Juventude Hitlerista 

Poucas pessoas foram tão afetadas com o internamento nos campos quanto Ingrid Helga Koster, cujas memórias registrou no livro Ingrid, uma História de Exílios (Ed. Sagüi). Nascida no Paraná, ela se tornou órfã de pai com apenas 1 ano de idade. Quando tinha 5 anos, sua mãe se casou novamente, com um alemão. Seu padrasto, Karl Von Schültze, tinha migrado para o Brasil em 1920, para fugir da crise que castigava a Alemanha depois da 1ª Guerra Mundial. Schültze chegou aqui e, junto com outros estrangeiros, começou a trabalhar em uma empresa alemã, a AEG, fazendo instalações elétricas em vários lugares do país. Ele se casou com a mãe de Ingrid no início dos anos 30, em Rio Negro, no Paraná. Pouco depois a família, já com duas outras filhas, se mudou para Joinville, em Santa Catarina, cidade dominada pela cultura alemã. Ingrid se lembra de ouvir no rádio um novo chanceler que assumira o poder na Alemanha, cujo carisma a deixava emocionada. "Eu ficava arrepiada. Ele sabia falar com o povo. Nós não imaginávamos o que estava acontecendo", conta Ingrid. O tal chanceler era Hitler.

Então começou a guerra, e o pai de Ingrid pressentiu que as coisas ficariam ruins. Ele proibiu, mais de uma vez, que Ingrid se unisse ao movimento Juventude Hitlerista que existia em Joinville. Na Alemanha, esse grupo foi criado para reunir e doutrinar ideologicamente os jovens de 6 a 18 anos. No Brasil, o grupo assumiu um tom mais brando - servia principalmente como ponto de encontro para os imigrantes alemães. Mas o pai de Ingrid não quis nem saber. E também queimou todos os livros em alemão que tinha em casa. Entre eles o famoso Mein Kampf (Minha Luta), de Hitler.

Até que, em 1942, a polícia bateu à porta. "Eles chegaram procurando pelo meu pai, o levaram e ficamos dias sem notícias. Até que chegou um comunicado dizendo que ele estava preso aqui em Joinville", lembra ela, que depois de algum tempo passou a levar marmitas para seu pai no Hospital Oscar Schneider, adaptado como campo de concentração à época. O governo brasileiro acreditava que Karl fosse um espião nazista. Por isso, o regime de confinamento dele era rígido. Nos dois meses em que ficou em Joinville, nenhum familiar pôde visitá-lo. A marmita era entregue aos guardas. Até que certo dia, quando Ingrid foi levar a comida, lhe avisaram que seu pai não estava mais lá: tinha sido transferido para o Presídio da Ilha das Flores, no Rio de Janeiro. "Nosso dinheiro acabou e tivemos que voltar para o Paraná, viver do jeito que dava", diz Ingrid. "Nossa casa era apedrejada, pichavam a suástica nos muros. Nós éramos o inimigo."

Daí em diante, ela só pôde visitar o padrasto uma vez por ano - no Natal. Quando a guerra acabou, Karl foi libertado por falta de provas. Mas seu chefe na AEG, Albrecht Gustav Engels, acabou condenado a 8 anos de prisão por fazer espionagem nazista. "Meu pai nunca falou sobre os tempos em que ficou preso. Mas acredito que tenha sofrido muito, inclusive tortura, porque antes era uma pessoa alegre e depois se tornou calado, triste", conta Ingrid. Ela chegou a perguntar antes de o padrasto morrer, em 1966, se ele realmente espionara. Karl deu uma resposta vaga, e disse apenas que não foi condenado. Então ele era mesmo um espião nazista? "Até hoje não tenho certeza", admite Ingrid.

Mesmo tendo passado por sofrimentos e humilhações, os prisioneiros alemães não quiseram deixar o Brasil depois da guerra. Como o padrasto de Ingrid. "Quando eu perguntava se ele não gostaria de voltar, ele dizia que, apesar de tudo, agora era brasileiro."

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Tripulantes do navio Windhuk


Os principais campos de detenção:

1. Tomé-Açú (PA)
A 200 km de Belém. Recebeu alemães e japoneses.

2. Chã de Estevão (PE)
Abrigou empregados alemães da Cia Paulista de Tecidos (hoje conhecida como Casas Pernambucanas).

3. Ilha das Flores (RJ)
Nessa cadeia, prisioneiros de guerra foram misturados com detentos comuns - uma violação das leis internacionais.

4. Pouso Alegre (MG)
O campo de Pouso Alegre reunia presos militares: os 62 marinheiros do navio Anneleise Essberger.

5. Guaratinguetá e Pindamonhangaba (SP)
Fazendas que pertenciam ao governo e foram adaptadas para receber alemães.

6. Oscar Schneider (SC)
Hospital transformado em colônia penal.



                                                                                                          Leandro Matos

sábado, 19 de março de 2011

O Islamismo

O profeta Maomé
O Islamismo inspira multidões e cresce cada vez mais. Hoje é a religião que mais cresce no mundo. No final do século XX, ultrapassou o catolicismo em número de fiéis. Já há mais de 1 bilhão de muçulmanos no mundo. Esse crescimento se verifica até mesmo em áreas tradicionalmente cristãs, como a Europa, a África Ocidental e os Estados Unidos. Na Alemanha, eles são atualmente cerca de 3% da população, em sua maioria imigrantes de origem turca. No Brasil, estima-se que já exista mais de meio milhão de muçulmanos, principalmente me São Paulo, Brasília e Foz do Iguaçu. São descendentes de árabes e negros empenhados em recuperar suas raízes islâmicas.

O islã, reunindo elementos do judaísmo e do cristianismo, é considerado a última das três grandes religiões monoteístas, depois do judaísmo e do cristianismo. Para os muçulmanos, Maomé é o último dos profetas de Deus (Alá, para os árabes), numa linhagem que começa com Adão e passa por Noé, Abraão, Moisés, Davi, Salomão, João Batista e Jesus Cristo. Todos mensageiros de um mesmo Deus, Javé ou Alá. Vários princípios islâmicos vêm do judaísmo e do cristianismo, como o respeito aos Dez Mandamentos, o Juízo Final e a noção do Paraíso.

Como surgiu o islã:

Alcorão
Século VI. Na região desértica da Península Arábica viviam os sarracenos – beduínos nômades, de origem semítica, de pele clara, mas tostada pelo sol. Sua forma de organização social se baseava nas tribos, onde conviviam os clãs. Suas aldeias se erguiam em torno dos oásis, separados entre si por longas distâncias. A cidade mais importante da região era Meca. Não apenas por ser um posto de abastecimento de água para as caravanas, como também por estar situada numa encruzilhada de caminhos que levavam ao Egito, à Síria e à Mesopotâmia. Meca é, até hoje, um grande centro de peregrinação religiosa: ali está a Caaba (cubo), um edifício retangular, de pedra, com 15 metros de altura. Num de seus ângulos, encontra-se a famosa Pedra Negra (provavelmente um meteorito), que, segundo a tradição árabe, foi trazida pelo anjo Gabriel e em cujo interior até 630 havia centenas de ídolos.

Quando Maomé nasceu, por volta de 570, Meca era um próspero centro comercial. Aos 20 anos, ele passou a trabalhar para Kadidja, uma viúva rica da cidade, 15 anos mais velha, com a qual casou aos 25.
Com o casamento, Maomé pôde viajar a frente das caravanas da mulher, conhecendo terras, pessoas e novos costumes. Nessas viagens, despertou para a religião.

Pedra Negra
Aos 40 anos, durante o Ramadã, o mês de peregrinação a Meca e a Caaba, subiu com a família ao monte Hira, para o retiro tradicional. Certa manhã, ao acordar, teria visto um anjo que lhe disse: “Maomé, és o mensageiro de Alá e eu sou Gabriel”. Após a primeira revelação, vieram outras. Aos poucos, foi se convencendo de que era um profeta. O anjo teria ordenado que pregasse aos árabes. E o principal tema da pregação era a existência de um só deus, Alá.
Maomé atraiu a oposição dos governantes de Meca, pois atacava as crenças tradicionais, ameaçando assim os lucros que a cidade obtinha com a peregrinação anual a Caaba. Corria portanto sérios riscos em Meca, o que o levou a procurar outra cidade para morar. Atendendo ao convite formal de mercadores de Medina para se instalar nessa cidade, situada cerca de 300 quilômetros ao norte de Meca, seguiu para lá no ano de 622, levando por volta de 300 adeptos. Essa migração ou hégira (hijra, em árabe) de Meca para Medina marcou uma reviravolta na vida de Maomé. (A data foi depois adotada como ponto de partida do calendário muçulmano.) Do simples cidadão que era em Meca, tornou-se, em Medina, o chefe supremo da comunidade. Foi a partir daí, também, que o teor das revelações mudou.

Enquanto estivera em Meca, Maomé pregara a existência de um só deus e submissão total (islam em árabe) a ele. A ida para Medina deu condições para que suas propostas deixassem de ter um caráter apenas religioso e passassem a ter um caráter político, gerando um Estado muçulmano (o termo muçulmano vem do árabe muslim, que significa “submisso”). Teve início o djihad, a guerra santa de conquista de Meca, considerada a cidade sagrada do islã. As caravanas que saíam de Meca ou para lá se dirigiam eram assaltadas em nome de Alá.
Após vários anos de lutas, na primavera de 628, Maomé sentiu-se suficientemente forte para atacar Meca. Em 630, ele marchou sobre a cidade com 10 mil homens e a tomou sem enfrentar resistência. Destruiu os ídolos da Caaba, respeitando apenas a Pedra Negra. Em seguida, proclamou Meca a cidade santa do islã. Estavam assentadas as bases do Estado islâmico.
Maomé tinha então 60 anos e vivera apenas mais dois.

Caaba

O islamismo prega a obediência a um único deus. A frase “Não há outro Deus além de Alá e Maomé é o seu profeta” é a base de tudo. As revelações de Maomé são chamadas em árabe de quran, ou seja, “declamação”, “recitação”. Daí o nome Corão ou Alcorão (Al Quran), o livro sagrado dos muçulmanos. No dia-a-dia, o livro é recitado na porta das mesquitas e nas cinco orações diárias. Alem do Corão, existe uma outra fonte de revelação feita por Alá: a sunna ou “tradição”, que é o relato da vida, da palavra e das ações de Maomé. Hoje, 90% dos muçulmanos são sunitas, seguidores da sunna. Os 10% restantes são xiitas, seguidores da shi´at “facção”, que obedecem exclusivamente às palavras do Corão.

O islã exige o cumprimento dos seguintes preceitos: crer em um único deus, Alá; orar cinco vezes ao dia, com a cabeça voltada em direção a Meca; praticar a caridade; jejuar no Ramadã; orar em comum ao meio-dia da sexta-feira e fazer a peregrinação à cidade santa ao menos uma vez na vida.

O Corão diz: “O sincero é o combatente”. Em outro trecho, afirma: “Matem os infiéis onde quer que eles estejam; prendam-nos, ataquem-nos e preparem contra eles todos os tipos de emboscadas”. Além de inumeras partes de reflexão religiosa e espiritual, é claro. A pregação monoteísta de Maomé poderia ser  (e acabou sendo) interpretada como uma pregação à prática de guerra. Os califas que o sucederam politicamente utilizaram-se do conceito de djihad (“guerra santa”) para impulsionar o expansionismo árabe.
Num momento em que o Império Romano do Ocidente havia desmoronado e os impérios Bizantino e Persa se esfacelavam, os árabes expandiram consideravelmente seus territórios. Em menos de 100 anos o islã era a religião de toda a costa sul e leste do Mediterrâneo, além de ter se espalhado pela Pérsia, até o vale do Indo, e para a Península Ibérica. A partir da Península Ibérica os árabes pretendiam dominar a Europa do reino franco. Mas em 732 foram contidos pelos francos, sob a liderança militar de Carlos Martel, na Batalha de Poitiers, no sul da França.

Muçulmanos fazendo orações no Ramadã

Em função de tantas conquistas, a civilização árabe viveu seu apogeu. Ela sintetizou, criativamente, as tradições culturais árabe, bizantina, indiana, persa e grega. Encantada pelo contato com os livros de ciência dos gregos, traduziu os livros de Euclides, Aristóteles, Ptolomeu e outros, contribuindo, dessa forma, para preservá-los. Tantas assimilações em tantas direções fizeram de muitos árabes astrônomos, médicos, filósofos, arquitetos e alquimistas.
A alquimia era uma mistura de ciência, arte e magia que foi se desenvolvendo até se transformar numa forma inicial da química. O maior alquimista árabe foi Jabir Ibn Hayyan, que pesquisava métodos para se obter um agente capaz de transformar outros metais em ouro. Para o homem medieval a busca do ouro era a busca da perfeição. Daí muitos considerarem que, se ingerido, o agente capaz de transformar metais em ouro também conferisse a imortalidade. Esse agente passou a ser conhecido como a “pedra filosofal”. Os esforços de Jabir mostraram-se inúteis, mas suas pesquisas demonstravam sua familiaridade com métodos químicos ainda hoje utilizados, como a sublimação, a cristalização e a destilação.

Outra alquimia árabe, no sentido metafórico, ocorreu na literatura: As mil e uma noites, um livro que mistura histórias da Índia, da Pérsia, da Ásia Menor, enfim, do mundo conquistado pelos árabes. Seus contos têm fascinado o mundo inteiro e influenciado grandes escritores, como os franceses Victor Hugo, Voltaire e outros tantos.


                                                                                                   Leandro Matos

sexta-feira, 18 de março de 2011

Efeitos e utilidades da radiação

A radioatividade é um fenômeno natural, podendo causar efeitos que trazem benefícios e malefícios à humanidade. No entanto, apesar de ser uma ameaça, ela também pode produzir bons efeitos, como em tratamentos médicos, fontes de energia e outros. Assim, os benefícios ou malefícios que ela pode causar dependem essencialmente da forma como é utilizada.

Fenômenos que provocam a radioatividade:


O átomo é um componente fundamental de toda a matéria que existe no universo e é constituído por diferentes arranjos entre prótons, neutros e elétrons. O que define a propriedade físico-química dos átomos são esses diferentes arranjos, permitindo identificar cada um como sendo um elemento químico tornando mais ou menos instável. A instabilidade dos átomos está relacionada a um excesso de energia no núcleo, que tende a ser liberada sob forma de radiações, ou seja, se seu núcleo tiver energia em excesso, ele tenderá a estabilizar-se, emitindo o excesso de energia na forma de partículas ou ondas. Essa radiação emitida pelo núcleo possui imensa capacidade de interagir com a matéria a sua volta, alterando sua estrutura.


O urânio-235, o césio-137, o cobalto-60 e o tório-232 são exemplos de elementos fisicamente instáveis ou radioativos. Eles estão em constante desintegração emitindo radiação.

Um vidro que contém urÂnio, na forma de diuranato (U2O72-), pode apresentar este belo brilho quando sob luz ultravioleta.

Há três tipos básicos de radioatividade: as partículas alfa, beta e gama, sendo que a primeira, por ter massa e carga elétrica muito grande, pode ser facilmente detida. Em geral elas não conseguem ultrapassar as camadas externas das células mortas de uma pessoa, sendo assim praticamente inofensiva. Porém podem penetrar nos organismos através de ferimentos ou aspirações, provocando lesões graves. As partículas beta apresentam uma velocidade próxima à da luz e percorrem poucos metros no ar, atravessam lâminas de chumbo de, no máximo, 2 mm de espessura ou de alumínio de até 5 mm, mas são barradas por uma placa de madeira de 2,5 mm de espessura.
As partículas gama podem ser detidas somente por uma parede grossa de concreto ou metal. As radiações gama apresentam a velocidade das ondas eletromagnéticas (velocidade da luz 300.000 km/s) e percorrem milhares de metros no ar.

Pode-se dizer que as radiações penetrantes evidentemente são as mais perigosas, pois podem destruir células de órgãos vitais. Assim, fica claro que as radiações gama produzem efeitos fisiológicos que são perigosos para os seres vivos quando recebidas em quantidades elevadas.
Existem algumas situações em que temos fonte de radioatividade. Como exemplo importante, pode ser citado o lixo nuclear, ou seja, rejeito radioativo. Esse lixo é todo material resultante de atividade humana que contenha elementos radioativos em risco a saúde humana e ao meio ambiente. Eles podem ser encontrados em usinas nucleares, hospitais, indústrias, clínicas médicas, centros de pesquisa, universidades e outros.


Ameaça Nuclear


Desde a última guerra mundial a poluição nuclear tem se tornado motivo de grande preocupação, principalmente para cientistas e militantes ecológicos do mundo inteiro. Vários países organizam estudos e criam rigorosas normas de segurança em atividades que usam energia nuclear, visando reduzir ou eliminar o aumento da radioatividade natural causada pela tecnologia criada pelo homem.

Num reator nuclear, basicamente a energia desprendida na fissão nuclear transformará a água líquida em vapor d’água. Este vapor movimentará uma turbina que, por sua vez, produzirá energia elétrica. Devido ao grande número de usinas nucleares espalhadas pelo mundo, estratégias vêm sendo traçadas no sentido de assegurar a qualidade de vida no planeta, uma vez que falhas em seu programa de segurança provocam explosões nos reatores gerando graves acidentes. 





Um exemplo é a explosão do reator número 4 da central de Chernobyl, na Ucrânia, em 26 de abril de 1986, que foi considerado o maior acidente nuclear da história, pois deixou o mundo inteiro em pânico, liberou uma nuvem radioativa que contaminou pessoas, animais e o meio ambiente em grande parte da Europa. Até os dias atuais não se sabe exatamente o número de mortos em decorrência desse acidente.

Na verdade a radioatividade pode causar graves problemas de saúde e muitos desses problemas se manifestam a longo prazo. Muitas pessoas que sobreviveram ao acidente cometeram suicídio; outros abandonaram as pressas suas casas e não voltaram a viver no local onde nasceram devido à radioatividade.

Observa-se que aumento da incidência do câncer de tireóide foi uma das principais conseqüências do desastre. Presume-se que a doença se alastrou e contaminou jovens de até 18 anos de idade, devido à incidência do iodo-131 liberado na explosão. Também foram registrados casos de depressão, alcoolismo e suicídios em números mais elevados que o normal.

Usina nuclear de Chernobyl após o acidente
No Brasil esse perigo pôde ser tristemente comprovado em setembro de 1987, quando uma cápsula contendo isótopo de césio-137, usado em equipamentos radiológicos, foi aberta por sucateiros e intensamente manuseada, contaminando centenas de pessoas.
No mar Báltico está concentrado sucata de submarinos nucleares afundados durante a segunda guerra mundial que constitui grave ameaça. Um exemplo que abrange muitos setores industriais, em especial a siderurgia, é a queima do carvão mineral, que contém elementos radioativos. Estima-se que, sejam queimadas em todo o mundo, por ano, 2,8 bilhões de toneladas de carvão, liberando 9 mil toneladas de tório e 3,6 mil toneladas de urânio para o meio ambiente. No petróleo e no gás natural, também há presença de elementos naturais radioativos que podem aumentar a exposição à radiação.

Os materiais radioativos apresentam um problema único que é como se desfazer dos resíduos. Eles devem ser armazenados de tal maneira que nem a radiação, nem as próprias substâncias radioativas possam entrar em contato com sistemas vivos. Muitos desses materiais continuam seu processo de decaimento por períodos de tempo muito longos, de modo que sua armazenagem não pode ser considerada um problema a curto prazo.

Radioatividade: Benefícios e conseqüências
 
A radioatividade está presente em todos os lugares. O ser humano, assim como as outras espécies, está exposto a esse fenômeno durante suas atividades diárias, seja através de fontes naturais de radiação ou pelas fontes artificiais, criadas pelo homem.
Esses elementos radioativos, quando bem manipulados, podem ser úteis na medicina ajudando, por exemplo, no tratamento de tumores cancerosos. Na radioterapia, a radiação é dirigida para o tecido doente destruindo o tumor. Em pacientes com câncer de tireóide, pequenas quantidades de iodo-131 são ingeridas por eles, fazendo com que o iodo se concentre na tireóide, destruindo os tecidos da glândula.
Também podemos citar o método de datação radioativa, que usado para determinar a idade de relíquias antigas, como fósseis, rochas e etc.

Minério de urânio
Os danos causados a saúde estão associados ao tipo de radiação e a quantidade acumulada no organismo. Se esta exposição for de dose excessiva pode provocar sérios problemas, como lesões no sistema nervoso, na medula óssea, no aparelho gastrintestinal e etc., causando até a morte. As radiações fazem com que os átomos que compõem as células sofram alterações em sua estrutura, afetando o seu funcionamento. Portanto elas são perigosas para os seres vivos quando recebidas em quantidades elevadas. Conseqüências biológicas no funcionamento do organismo comum aparecerão com o tempo, algumas mais rápidas, outras de forma lenta, podendo ainda apresentar-se apenas nos descendentes do indivíduo que sofreu a alteração induzida pela radioatividade.

A radioatividade ambiental provocada por atividades humanas tem aumentado significativamente e, portanto, é um tema sujeito a intensa investigação. Vários trabalhos científicos têm sido desenvolvidos, bem como tecnologias de medida e controle da radiação. Formas de regulamentação vêm sendo estudadas para aumentar a segurança. Assim, um importante alerta às indústrias que trabalham com materiais que apresentam elevada radioatividade natural é que busquem a tecnologia adequada para eliminar ou controlar os aspectos negativos que a radiação pode produzir. Embora a ciência seja muito importante em nossas vidas, o uso consciente dela é que faz a diferença. Assim como os átomos instáveis evoluem em busca de uma configuração mais estável, nós, seres humanos, devemos evoluir em busca da estabilidade ambiental, ou seja, diminuir os impactos causados à natureza, pois sem ela é impossível haver vida e muito menos ciência.

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Créditos: Elaine Gonçalves Lemos, Eliene Gonçalves Lemos e Neuza de Souza Oliveira – Acadêmicas do curso de Licenciatura plena em física da UNIR – Campus de Ji-Paraná-RO


Referências:

LEMBO, Antônio; SARDELLA, Antônio. Química. São Paulo, Ática, 1978.
O`CONNOR, Rod. Fundamentos de Química. São Paulo, Editora Harper e Row do Brasil, 1977.
RUSSEL, Jhon Blair. Químico geral. 2ªed. São Paul: Pearson Makron Books, 1994.
SARDELLA, Antônio. Curso de Química. Vol. 2, São Paulo, Ática, 1998.
ALMANAQUE ABRIL: Atualidades Vestibular. 4ªed. São Paulo: Editora Abril, 2007.


                                                                                                           Leandro Matos

quinta-feira, 17 de março de 2011

Hebreus - História resumida

Estrela de Davi
Antepassados do povo judeu, os hebreus têm uma história marcada pela migração e pelo monoteísmo. Foram o primeiro povo realmente monoteísta da história, e o culto a Jeová foi o elemento que unificou os hebraicos contra os inimigos externos.
Segundo a tradição, Abraão, o patriarca fundador da nação hebraica, nascido em Ur (Mesopotâmia) por volta do século XIX a.C., recebeu de Deus a missão de migrar para Canaã, terra dos cananeus, depois chamada de Palestina, onde se localiza hoje o estado de Israel. Os hebreus eram pastores originalmente nômades provenientes da região da Mesopotâmia. Eles viveram cerca de dois séculos na região de Canaã dedicando-se a agricultura e ao pastoreio. Crescentes dificuldades econômicas provocaram a migração de muitos hebreus para as regiões férteis às margens do Nilo. Com isso eles acabaram chegando ao Egito, onde viveram entre 300 e 400 anos e, segundo a tradição bíblica, foram escravizados.

Sua história ganha força a partir do momento em que decidem sair do Egito. A volta dos hebreus a Canaã é conhecida como êxodo, e teria durado cerca de 40 anos. Segundo a bíblia, foi durante essa viagem que Moisés, no alto do Monte Sinai, recebeu de Jeová a Tábua dos Dez Mandamentos, que deveria guiar o comportamento dos hebreus.


O patriarca Josué, que substituiu Moisés ainda durante a volta à Canaã, liderou a luta pela reconquista do território dos hebreus, que estava ocupado por vários povos organizados em tribos. Essa luta elevou a importância dos juízes, nomeados para comandar a expulsão da tribo dos filisteus em Canaã. Samuel, o último dos juízes, tentou promover a união das doze tribos hebraicas que ocupavam a região, mas isso só ocorreria sob a liderança de Saul, considerado o primeiro rei dos hebreus.

O sucessor de Saul, Davi, garantiu a consolidação do estado hebraico, caracterizado pela centralização do poder nas mãos do rei, que ainda exercia as funções de chefe político, militar e religioso. Davi foi sucedido pelo rei Salomão, que construiu o templo de Jerusalém, entre outras obras públicas, fez uma aliança comercial com os fenícios, que dominavam o comércio mediterrâneo, e também instituiu inúmeras datas religiosas. Além disso, decretou o trabalho compulsório, explorando sobretudo a população camponesa.

Pastores Judeus

A política social e os altos impostos criados por Salomão geraram um grande descontentamento popular, que explodiu com a sua morte (cerca de 930 a.C.), provocando a Cisma, isto é, a separação das doze tribos hebraicas em dois reinos: Israel e Judá.

Israel reunia as dez tribos do norte e tinha como capital Samaria, já o reino de Judá era formado por duas tribos do sul, e sua capital era Jerusalém. A divisão favoreceu a invasão estrangeira. O rei babilônico Nabucodonosor II dominou a região, levando os hebreus para a Babilônia, período que ficou conhecido como Cativeiro da Babilônia.
Em 539 a.C. os Persas conquistaram o território babilônico e permitiram a volta dos hebreus para a Palestina (Canaã). Em 333 a.C. a Palestina foi dominada por Alexandre Magno, da Macedônia, mas tempos depois voltou a ser libertada.

Em 70 d.C. a Palestina era uma província do Império Romano; as muitas rebeliões levaram os romanos a expulsar os hebreus da região, assim eles se dispersaram pelo império. Esse período ficou conhecido como Diáspora.

Até 1948, quando foi fundado o estado de Israel, os hebreus, agora já tratados como judeus, viveram sem pátria; atualmente são os palestinos que não têm pátria, pois suas terras foram ocupadas pelos israelenses, sendo esse um dos motivos para os intermináveis conflitos entres esses dois povos.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Império Romano – As questões religiosas

Júlio César

A religião romana era uma adaptação da religião da elite grega. Os romanos simplesmente mudaram os nomes de divindades gregas e adaptaram seu caráter de acordo com o modo de vida romano. Zeus, por exemplo, em Roma era chamado de Júpiter; Artêmis, de Diana; Dionísio, de Baco; Atena, de Minerva; Afrodite, de Vênus, além de outros.

É provável que o culto a esses deuses tenha sido praticado pelas famílias patrícias e que as classes populares se mantivessem presas às antigas crenças rurais.

Os romanos eram políticos e conviveram com muitos outros povos politeístas, não existindo registro de conflitos entre eles. Os conflitos aconteceram com grupos monoteístas: Primeiro com os judeus, depois com os cristãos. A origem dos conflitos com os judeus estava no fato de Palestina não aceitar sua condição de província de Roma, o que implicava no pagamento de impostos, a aceitação de governantes e exércitos romanos em seu território. No ano 70 d.C., diante da dificuldade de apaziguar a província, os romanos destruíram o Templo de Salomão e arrasaram Jerusalém, provocando a diáspora (dispersão dos judeus pelo Império Romano).

Vênus de Milo, Museu do Louvre

O conflito com os cristãos, sobretudo nos séculos I e II, surgiu porque o cristianismo primitivo pregava idéias que se contrapunham ao regime imperial, como o pacifismo, a igualdade entre os homens, a humildade e o reconhecimento de Deus como o único Senhor. Como essas teses subvertiam os valores pregados por Roma, podemos dizer que a perseguição aos cristãos teve um caráter mais político que religioso.

No século IV, as perseguições cederam lugar as conversões. Constantino, o Grande, que governou Roma de 313 a 337 d.C., assinou o Édito de Milão, concedendo liberdade de culto aos cristãos. Pouco antes de morrer, Constantino que era pagão, foi convertido ao cristianismo. A sua conversão garantiu liberdade para as atividades da nova igreja, que já estava bem estruturada. Ao aceitar o cristianismo, o Império Romano conquistava a adesão de uma verdadeira multidão, sobretudo da população pobre e, o que era mais importante, de um grande número de líderes muito respeitados por suas comunidades: Os Bispos. Graças a conversão romana ao cristianismo essa religião acabou se popularizando e se espalhando pelo mundo para se tornar tão grande como é hoje.

                                                                                                        Leandro Matos
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